Não precisamos ser perfeitos
Há uma exigência em mim que nem sempre se vê com ternura — mas nasce dela.
Há dias em que me apercebo de uma coisa que nem sempre gosto de admitir.
Às vezes sou demasiado dura.
Não por maldade, nem por falta de cuidado com os outros. Pelo contrário. Talvez seja precisamente porque me importo demasiado que, por vezes, me torno mais exigente do que gostaria.
Tenho dentro de mim uma espécie de exigência silenciosa que me acompanha desde sempre. Uma voz que me pede mais rigor, mais atenção, mais perfeição.
Aprendi, não sei bem quando, que fazer bem não bastava — era preciso fazer melhor. E esse “melhor” foi crescendo comigo, como uma régua invisível que raramente desce.
Quero fazer tudo bem.
Quero que as coisas resultem.
Talvez porque fui ensinada assim desde muito cedo. Cresci com a ideia de que era preciso fazer bem, fazer melhor, fazer sempre um pouco mais. Como se o valor das coisas — e das pessoas — estivesse muitas vezes escondido na capacidade de acertar, de corresponder, de não falhar.
E a verdade é que a sociedade também nos empurra nessa direção. Vivemos num tempo que parece exigir versões cada vez mais perfeitas de nós próprios: mais produtivos, mais eficientes, mais capazes de dar resposta a tudo.
Mas, curiosamente, quanto mais tentamos corresponder a esse ideal, mais facilmente sentimos que estamos aquém dele.
O perfeccionismo tem esta estranha forma de se disfarçar de virtude. Faz-nos acreditar que estamos a ajudar, quando às vezes estamos apenas a apertar demais. E eu reconheço isso em mim. Na forma como olho para os outros — e para mim própria — com um olhar que procura sempre mais, que espera sempre mais um pouco.
Paulo Freire lembrava-nos de algo profundamente humano: aprender — e viver — é um processo. Um caminho feito de tentativas, de diálogo, de construção imperfeita e contínua.
E talvez seja precisamente disso que às vezes me esqueço. Quero tanto que o mundo — pelo menos o pequeno mundo à minha volta — funcione da melhor forma possível, que, no meio dessa vontade de fazer bem, me esqueço de uma coisa essencial: respirar e ter calma.
Esqueço-me de que a vida não é um exercício de matemática que precisa sempre de uma solução perfeita. Há dias que são apenas aproximações, tentativas, versões provisórias do que somos capazes de fazer naquele momento.
Às vezes é preciso dar espaço à vida para ela acontecer.
Dar espaço aos outros para serem imperfeitos.
Espaço às circunstâncias para não correrem exatamente como imaginei.
E, talvez o mais difícil de tudo, espaço a mim própria para falhar sem sentir que falhei demasiado.
Com o tempo tenho aprendido — lentamente — que a exigência não precisa de desaparecer, mas pode transformar-se. Pode ser mais leve. Mais humana. Mais próxima do cuidado do que da cobrança.
Talvez o verdadeiro desafio não seja deixar de ser exigente, mas aprender a ser exigente com ternura.
Porque, no fundo, a vida não nos pede perfeição. Pede-nos apenas presença.
E às vezes a coisa mais corajosa e humana que podemos fazer é abrandar um pouco e lembrar-nos de que também merecemos o mesmo cuidado que tantas vezes oferecemos ao mundo.
PB ✨
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