Hoje o sol apareceu

Hoje o sol apareceu.

E bastou isso para que alguma coisa mudasse nas ruas.

Havia pessoas de manga curta, como se o corpo também quisesse respirar depois de tantos dias escondido dentro de casacos. Havia sorrisos mais abertos, passos mais leves, gente a caminhar sem pressa.

As esplanadas estavam cheias.

Ouviam-se conversas, gargalhadas, o tilintar de copos. Havia uma espécie de boa disposição espalhada pelo ar, como se a cidade inteira tivesse decidido levantar a cabeça ao mesmo tempo.

É curioso como um dia de sol consegue fazer isso.

Quase poderíamos falar de uma proporção direta: quanto mais luz há no céu, mais leve parece ficar o coração das pessoas.

Talvez seja exagero matemático, mas hoje parecia evidente.

Depois de tantos dias de inverno — chuva insistente, vento, tempestades, céu cinzento — a luz voltou e, com ela, alguma coisa dentro de nós também se reorganizou.

Porque os dias longos de inverno têm esse poder silencioso. Fecham-nos um pouco dentro de casa, mas também dentro de nós: o mau humor pesa mais. A paciência encurta. Às vezes até o olhar das pessoas parece mais cansado.

Não é necessariamente tristeza profunda. Mas há uma sombra leve que se instala devagar — uma espécie de cansaço da alma.

Talvez seja por isso que o sol faz tanta diferença.

Não muda apenas a temperatura do ar.

Muda também a temperatura do espírito.

Somos seres de esperança, capazes de nos refazer mesmo depois dos dias mais difíceis. E talvez a natureza nos recorde isso com uma simplicidade desarmante. Depois de muitas nuvens, o sol regressa. E quando regressa, as pessoas também parecem regressar um pouco a si mesmas.

Talvez seja por isso que gosto tanto destes primeiros dias de luz mais generosa.

Porque não iluminam apenas as ruas.

Iluminam também alguma coisa dentro de nós.

E, por algumas horas, a cidade inteira parece lembrar-se de que viver pode ser leve.

PB ✨

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