Há pessoas que prometem. Há pessoas que cumprem.
Às vezes não é preciso muito para perceber quem uma pessoa é. Basta uma palavra.
Não a palavra bonita, dita com convicção e com um certo brilho nos olhos — essa qualquer um consegue pronunciar. Refiro-me à palavra que fica depois, quando o momento passa. A palavra que exige memória, responsabilidade e uma espécie de fidelidade silenciosa ao que se disse.
Há pessoas que falham com a palavra como quem muda de caminho numa rua qualquer. Sem grande peso. Sem grande reflexão. Dizem “estarei lá”, “conta comigo”, “não te preocupes, eu trato disso”, e seguem o seu dia como se essas frases fossem apenas pequenas moedas de troca social. Algo para suavizar o instante, para evitar o desconforto de dizer não.
Talvez nem se apercebam do que fazem.
A palavra, para elas, é leve. Tão leve que o vento da primeira conveniência a leva embora.
Mas quem escuta a promessa sente outra coisa. Há sempre um pequeno acto de confiança quando acreditamos no que alguém diz. Uma espécie de ponte invisível que se constrói entre duas pessoas. E quando a palavra falha, não é apenas um compromisso que se perde — é essa ponte que se quebra, às vezes sem ruído, mas nunca sem consequência.
Curiosamente, as pessoas que mais prometem raramente são as que mais cumprem. Há nelas uma generosidade aparente que, na verdade, nasce da facilidade com que distribuem aquilo que não pensam carregar. Prometer torna-se um gesto rápido, quase automático.
Cumprir, pelo contrário, exige algo mais raro: carácter.
Cumprir implica lembrar. Implica organizar a própria vida em torno de algo que dissemos a alguém. Implica reconhecer que a nossa palavra não é apenas nossa — passa a pertencer também à pessoa que a ouviu.
Talvez por isso as pessoas que realmente cumprem sejam tão discretas. Não prometem muito. Observam mais do que falam. E quando finalmente dizem “sim”, há nessa palavra uma gravidade tranquila, como uma pedra colocada no lugar certo.
Essas pessoas são raras.
Não porque o mundo esteja cheio de más intenções — na verdade, muitas vezes é apenas descuido, distração ou um certo egoísmo leve, quase inocente. Mas mesmo assim, o resultado é o mesmo: promessas esquecidas, encontros que não acontecem, compromissos trocados por algo aparentemente mais urgente.
E assim, pouco a pouco, vamos aprendendo a distinguir as pessoas.
Não pelas suas ideias, nem pelo brilho das suas conversas, mas por algo muito mais simples: pela forma como tratam a própria palavra.
Confesso que sempre lidei mal com quem falha com ela. Talvez porque, para mim, a palavra nunca foi uma formalidade — é um compromisso silencioso. Quando digo que estarei, estarei. Quando assumo algo, procuro cumpri-lo. Não só por orgulho, mas também por respeito.
Por isso custa-me quando alguém troca a palavra dada pelos seus interesses momentâneos, quando um compromisso se dissolve porque surgiu algo aparentemente mais conveniente. Ainda mais quando, acima desse compromisso, existia algo maior: amizade.
Nesses momentos não é apenas a confiança que se quebra.
Há também uma espécie de deslocação interior, quase impercetível. Algo que se afasta. Como se a amizade, silenciosamente, recolhesse os seus passos e deixasse de caminhar naquele sentido.
Porque quando alguém que tínhamos por amigo nos falha com a palavra, o que se perde não é apenas a promessa que ficou por cumprir. Perde-se também a vontade de continuar a acreditar e esbatem-se, sem volta, os laços criados.
PB
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