E na hora da nossa morte, quero que ela me encontre viva.

E na hora da nossa morte, quero que ela me encontre viva. Não apenas respirando, não apenas ocupando espaço neste mundo por hábito ou por inércia. Quero que me encontre verdadeiramente viva — desperta para a vida, para as pessoas, para as pequenas maravilhas escondidas nos dias mais comuns. Quero que me encontre com os olhos curiosos, com o coração aberto e com a alma ainda disponível para aprender. Não quero que a morte me encontre adormecida na rotina, anestesiada pela pressa dos dias ou perdida nas distrações que nos afastam do essencial. Quero que me encontre consciente do caminho que percorri, com as mãos marcadas pelas tentativas, pelos erros e pelas aprendizagens que fizeram de mim quem sou. Porque viver, para mim, nunca foi apenas atravessar os dias. Viver é prestar atenção. É escutar com verdade, sentir com intensidade, olhar o mundo como quem ainda se espanta. É saber que cada encontro pode transformar-nos um pouco, que cada perda traz dentro de si uma lição silenciosa, e que cada desafio nos convida a crescer. Quero que a morte me encontre assim: com histórias dentro de mim. Histórias de amor, de amizade, de coragem e também de fragilidade. Histórias de momentos em que fui forte e de outros em que precisei de aprender a recomeçar. Porque a vida, quando é vivida com verdade, raramente é linear. É feita de desvios, de quedas, de caminhos inesperados — e de descobertas que só acontecem quando aceitamos caminhar sem garantias. Quero chegar a esse momento carregando memórias que tenham peso de significado. Lembranças de conversas demoradas, de risos partilhados, de abraços que disseram mais do que mil palavras. Quero lembrar-me dos dias em que aprendi algo novo, em que mudei de opinião, em que me permiti crescer. Porque aprender é, talvez, uma das formas mais bonitas de estar vivo. Aprender com os livros, com as pessoas, com os lugares, com os erros. Aprender com o silêncio, com o tempo, com a própria vida. Cada aprendizagem é uma pequena luz que acendemos dentro de nós. Quando a morte vier — porque um dia ela vem — quero poder olhar para trás e sentir que vivi uma vida com sentido. Não uma vida perfeita, porque a perfeição é uma ilusão estéril, mas uma vida autêntica. Uma vida em que procurei ser melhor, compreender mais, amar mais fundo. Quero poder dizer que não me limitei a existir. Que não deixei passar os dias sem lhes dar significado. Que tentei viver com presença, com consciência e com gratidão. Talvez, nesse instante final, tudo se torne simples. Talvez percebamos que aquilo que realmente importa nunca foi aquilo que acumulámos, mas aquilo que partilhámos. O amor que demos. O bem que fizemos. A presença que oferecemos aos outros. E então, quem sabe, nesse último momento, a morte não seja apenas um fim, mas apenas a última página de uma história que valeu a pena ser escrita.

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