Domingos

Há dias que não fazem barulho. Não chegam com anúncios nem com grandes acontecimentos. Instalam-se devagar, como a luz que entra pelas frestas da janela e, sem pedir licença, vai ocupando o espaço. Hoje foi assim. Um domingo de sol. Acordei mais tarde do que o habitual — aquele acordar sem culpa, sem pressa, sem a urgência das horas que nos empurram nos dias úteis. Fiquei ainda algum tempo entre o sono e a vigília, naquele estado suspenso onde tudo é mais leve e o mundo ainda não pesa. Levantar num dia assim é diferente. Há uma espécie de suavidade nos gestos, uma lentidão que não é atraso, mas escolha. A casa estava tranquila. Faltava apenas a filha mais nova — está longe, por terras de Espanha, em digressão com a sua Tuna, a viver a vida no seu próprio ritmo. Mas essa ausência não é um vazio. É apenas um intervalo com data marcada. Amanhã já volta ao colo da mãe. E isso muda tudo. Preparei o almoço sem pressa. Há qualquer coisa de profundamente humano em cozinhar para os nossos. Cortar, mexer, provar, ajustar — pequenos gestos repetidos que, no fundo, dizem aquilo que muitas vezes não sabemos pôr em palavras. Cuidar também é isto. Estavam quase todos hoje à mesa. E, às vezes, “quase” é suficiente para fazer sentido. O sol entrava pela cozinha como se quisesse participar. Havia conversa solta, risos dispersos, aquele ruído bom que nasce das conversas partilhadas e de um copo de vinho fresco bebido em conjunto enquanto se alinham temperos. Depois do almoço, deixei-me ficar. Hoje procrastinar, não teve o peso habitual da palavra. Não foi fuga, nem adiamento — foi pausa. Um espaço necessário entre o que já foi feito e o que ainda está por fazer. Há dias em que parar também é uma forma de avançar. Mas o dia não se esgota sem trabalho. Há sempre um regresso — discreto — à responsabilidade. Aos trabalhos pendentes, às aulas por preparar, ao amanhã que já se insinua antes de chegar. E, ainda assim, hoje tudo isso pareceu diferente. Menos pesado. Menos urgente. Como se o sol tivesse suavizado também o modo como olho para as obrigações. Sentei-me, organizei, revi, preparei. Não com pressa. Mas com presença. E talvez seja isso que muda tudo: não o que fazemos, mas a forma como habitamos aquilo que fazemos. Lá fora, a primavera começa a afirmar-se. Ainda tímida, mas já inevitável. Há qualquer coisa de profundamente simbólico nisso — esta ideia de recomeço que não pede autorização, que não precisa de estar tudo resolvido para começar. A vida faz isso. Recomeça, mesmo quando ainda há coisas por arrumar. Avança, mesmo quando ainda há dúvidas. Floresce, mesmo quando não parece ser o momento perfeito. Talvez seja isso que este domingo me trouxe. Não uma revelação. Mas um lembrete. De que nem tudo precisa de ser intenso para ser importante. De que há dias que não mudam tudo, mas alinham. E, às vezes, é disso que precisamos. De pequenos alinhamentos. De luz suficiente. De tempo que não foge. De um almoço em família, ainda que incompleto. De uma ausência que não dói porque sei que tem regresso marcado. De tarefas que se cumprem sem peso. De um dia que não exige mais do que aquilo que conseguimos dar. E, no meio disso tudo, de uma espécie de aceitação tranquila — não a resignação de quem desiste, mas a lucidez de quem compreende que a vida não precisa de ser perfeita para fazer sentido. Há uma forma de paz que não vem das respostas, mas da ausência de urgência em tê-las. Uma forma de estar que não resolve tudo, mas sustenta. E talvez seja isso que este dia trouxe. Não uma mudança. Mas uma medida. Não um recomeço declarado. Mas um equilíbrio discreto. Como se, por instantes, tudo tivesse encontrado o seu lugar — não porque ficou resolvido, mas porque deixou de precisar de o estar. E é nesse espaço, entre o que falta e o que basta, que a vida, às vezes, se torna suficiente. 💛 PB

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