Como vive uma professora de matemática com PHDA?
A primeira coisa que é preciso saber sobre viver com PHDA é que o meu cérebro não acorda devagar. Ele desperta como um mercado às sete da manhã. Ainda antes do café, já passaram pela minha cabeça: o teste de matemática que os meus alunos vão fazer, a tese que estou a escrever, as aulas da tarde que quero tornar mais interessantes, uma ideia nova para explicar funções de outra maneira, a lista de compras, uma memória antiga e a pergunta existencial de onde está o telemóvel.
Viver com PHDA é um pouco isto: um cérebro que acorda antes de nós. Sou professora de matemática. Sou mãe. Sou investigadora. Sou estudante. E tenho PHDA.
Descobri tarde, como acontece com muitas mulheres. Durante anos pensei apenas que era uma pessoa muito curiosa, muito entusiasmada, um pouco desorganizada e com uma capacidade suspeita para fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Agora sei que o meu cérebro funciona como um computador com demasiadas janelas abertas.
O problema não é a falta de ideias. É escolher qual delas fechar.
Mas há também superpoderes discretos: Tenho uma memória quase indecente para certos detalhes. Lembro-me de conversas antigas, de números improváveis, de explicações que dei há anos e do nome de todos os meus professores e de todos os meus alunos. E talvez por isso sempre tive uma relação muito natural com a matemática. A matemática é, para mim, um lugar de descanso. Enquanto o mundo pode ser caótico, os números têm uma ordem secreta. Há algo profundamente tranquilizador em saber que um teorema não depende do humor do dia, nem da lista de tarefas, nem do estado da cozinha lá em casa. Os números são fiéis e, talvez por isso, ensinar matemática nunca me pareceu apenas ensinar contas. É ensinar padrões. É mostrar aos alunos que existe beleza em compreender como as coisas se ligam. E talvez — só talvez — um cérebro como o meu esteja particularmente atento a padrões. No entanto, a vida prática não vive de teoremas.
E entre ser professora, mãe, investigadora e estudante, os dias parecem às vezes um malabarismo feito com demasiadas bolas. Há manhãs em que preparo uma aula espectacular e faço 10 fichas diferentes e esqueço-me do telemóvel em casa.
Há dias em que escrevo páginas inteiras de um artigo… e só depois percebo que não almocei. E há momentos em que consigo trabalhar concentrada durante horas e horas — o famoso hiperfoco — como se o tempo tivesse decidido suspender-se, e ainda assim, estar atenta a 2 ou 3 conversas diferentes que se passam ao meu redor.
Viver com PHDA é um pouco como ter um cérebro que alterna entre o caos e a intensidade absoluta. Mas talvez o lugar onde esta forma de ser mais se revela seja na forma como vivo a maternidade. Tenho dois filhos adultos, e olhar para eles é uma das maiores confirmações de que, apesar do caos ocasional em que vivo, alguma coisa fiz bem.
O Miguel tem 24 anos. É sobredotado. E, tal como eu, também tem PHDA. Talvez, por isso, entre nós exista uma espécie de linguagem silenciosa. Uma compreensão que não precisa de muitas explicações. Talvez porque reconhecemos no outro certas paisagens mentais: as ideias rápidas, a curiosidade intensa, o entusiasmo pelas perguntas difíceis.
A minha filha tem 20 anos e estuda medicina. Sempre foi determinada, curiosa e profundamente dedicada ao que faz. Durante muitos anos acompanhei os dois no estudo. Expliquei matérias, fiz perguntas, inventei formas de tornar os problemas mais claros, mais interessantes, mais desafiantes. Houve noites de conversa à mesa sobre ciência, sobre números, sobre o mundo. E talvez tenha sido aí que a professora e a mãe se encontraram mais naturalmente.
Nunca quis apenas que estudassem para ter boas notas. Quis que aprendessem a pensar. Hoje olho para eles com um orgulho tranquilo. Não apenas pelo caminho académico que seguiram, mas pela relação que construímos. Temos conversas longas. Rimos muito. Discordamos também, às vezes — como todas as pessoas que pensam pela própria cabeça. Mas somos cúmplices.
Há entre nós uma amizade rara entre pais e filhos adultos. Uma proximidade que nasceu de anos de diálogo, curiosidade partilhada e respeito mútuo.
Talvez seja esse um dos maiores presentes da maternidade: perceber que os filhos crescem, seguem o seu caminho… e continuam a querer conversar connosco.
Com o tempo comecei também a olhar para a PHDA com mais ternura e menos julgamento. Percebi que não se trata de tentar tornar-me numa versão perfeitamente organizada de mim mesma — essa pessoa provavelmente nunca existirá — mas sim de aprender a conhecer melhor a paisagem do meu próprio cérebro.
Criar estratégias. E aproveitar talentos.
Porque a mesma mente que se distrai com facilidade também é capaz de curiosidade infinita. A mesma mente que perde papéis também encontra padrões.
A mesma mente que se dispersa em mil direções também consegue mergulhar profundamente numa pergunta até descobrir algo novo.
Talvez seja por isso que muitos investigadores, artistas e professores tenham descrito as suas mentes como lugares um pouco caóticos… mas extraordinariamente férteis. Como um jardim onde as plantas crescem muito, embora em direções imprevisíveis.
Hoje olho para trás com algum humor. Muitas coisas que antes me pareciam falhas pessoais eram apenas parte da forma como o meu cérebro funciona.
E isso muda tudo.
Não porque resolve todos os desafios — eles continuam lá — mas porque transforma a culpa em compreensão, o desajuste em alívio.
A verdade é que todos nós habitamos o mundo através de um cérebro único. Alguns são silenciosos como bibliotecas. Outros são movimentados como mercados.
O meu é mais parecido com uma cidade antiga ao entardecer: cheia de ruas estreitas, vozes cruzadas, muitas luzes acesas ao mesmo tempo. Às vezes confuso, disperso, mas cheio de vida.
E depois de tantos anos, é bom olhar para ele e finalmente compreender: a minha cabeça é como uma espécie de casa barulhenta sempre em festa: Com todas as janelas abertas... Ao mesmo tempo.
PB
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