Arranjar tempo
Há dias que parecem não ter fim, dias que se estendem como uma linha contínua de tarefas, vozes, decisões e pequenas urgências que se acumulam sem pedir licença. E, no entanto, é precisamente nesses dias — talvez apenas nesses — que se tornam possíveis os encontros mais improváveis e mais necessários.
Hoje foi um desses dias.
No final de tudo, quando o cansaço já se insinuava no corpo e a vontade mais imediata seria recolher, houve uma escolha quase impercetível, mas profundamente significativa: arranjar tempo. Não encontrar tempo — porque esse, sabemos, nunca aparece — mas criá-lo, como quem abre uma clareira no meio do ruído.
Fomos jantar. Três.
E há algo de misterioso no modo como certos encontros acontecem, como se fossem já antigos antes mesmo de começarem. Sentámo-nos à mesa e, sem qualquer cerimónia, os lugares habituais foram ficando para trás. Não houve momento de transição, não houve anúncio — apenas aconteceu. Deixámos de ser o que éramos durante o dia. Não havia ali professora, nem alunas. Havia três mulheres, três histórias, três formas de olhar o mundo que, por instantes, se aproximaram até quase se reconhecerem.
Falámos devagar, como quem sabe que o tempo, sendo pouco, deve ser inteiro. E talvez tenha sido isso que fez a diferença: não a quantidade de horas, mas a qualidade da presença. O modo como cada palavra era escutada, como cada silêncio era respeitado, como não havia necessidade de preencher tudo — porque, entre nós, até o silêncio parecia ter sentido.
Falámos de coisas simples e de coisas profundas, como quase sempre acontece quando há confiança. De cansaços que não se mostram durante o dia. De inquietações que se guardam. De sonhos ainda frágeis. De alegrias pequenas, mas verdadeiras. E, sem darmos conta, fomos deixando cair as camadas que habitualmente nos protegem, como se ali não fosse preciso defender nada.
Havia uma espécie de lealdade silenciosa a atravessar a mesa, uma certeza tranquila de que tudo o que ali se dizia encontrava lugar seguro. Como se as palavras não fossem apenas ditas, mas guardadas — com cuidado, com respeito, com uma delicadeza rara.
Vivemos numa época em que tudo é rápido, imediato, urgente. Falta-nos tempo para quase tudo, mas sobretudo para aquilo que verdadeiramente importa: escutar, estar, permitir ao outro existir sem pressa. E, no entanto, hoje percebi que o tempo não se encontra — constrói-se. Escolhe-se. Defende-se.
O que nos uniu não foi apenas o contexto que nos aproximou, mas algo mais subtil e mais profundo: a disponibilidade para sermos verdadeiras umas com as outras. Para estarmos sem papéis, sem expectativas, sem necessidade de representar.
Talvez seja isso que transforma certos encontros em algo maior do que um simples jantar. Há momentos que não se explicam — apenas se reconhecem. Momentos em que deixamos de ocupar lugares definidos e passamos, simplesmente, a habitar um espaço comum.
Hoje não fomos aquilo que costumamos ser.
Fomos apenas três mulheres a partilhar o tempo — e, talvez por isso, a torná-lo maior do que ele realmente era. 🤍
PB
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