vejo-te ...

Há um provérbio africano que diz: “Eu vejo-te.” E o outro responde: “Estou aqui.” O amor começa talvez assim — não com promessas, não com juras eternas, mas com esse reconhecimento simples e quase sagrado: eu vejo-te. Vejo a tua luz e as tuas sombras, as tuas falhas e as tuas tentativas, o que mostras e o que escondes. Vejo-te inteiro, e não desvio o olhar. Num mundo que tantas vezes nos atravessa sem nos notar, ser visto é uma forma de salvação discreta. O absurdo da existência, essa sensação de caminhar num território vasto e indiferente, torna-se menos pesado quando alguém nos olha como se fôssemos necessários. O amor talvez seja isso: um gesto de atenção radical.Uma dádiva de alguém que nos olha e vê por inteiro. “Eu vejo-te” não é apenas constatar a presença do outro. É reconhecer-lhe a dignidade. É dizer: tu não és invisível. A tua dor não é pequena. A tua alegria não é irrelevante. A tua história não é um ruído no fundo do mundo. E quem é visto responde: “Estou aqui.” Estou aqui apesar do medo, apesar das cicatrizes, apesar do que não sei dizer. Estou aqui com as minhas contradições, com a minha humanidade imperfeita. O amor vive nesse espaço frágil entre ver e permanecer, entre a existência e a permanência nos olhos do outro. Há algo de profundamente rebelde nesse encontro. Amar é recusar a indiferença. É insurgir-se contra o nada com um olhar atento. Não resolve o mistério da vida, não apaga a solidão essencial que cada um carrega, mas cria uma ponte — ainda que temporária — entre dois desertos. Amar não é salvar o outro do mundo, nem prometer eternidade. É simplesmente estar presente. É dizer “eu vejo-te” quando o outro se sente invisível. É responder “estou aqui” quando tudo dentro de nós quer fugir. Muitas vezes o amor é essa coragem silenciosa: é olhar e não desviar; é permanecer e não possuir; reconhecer e não julgar. No fim, não é a grandiosidade que sustenta o amor, mas a atenção. Esse gesto quase mínimo, quase invisível, que transforma dois estranhos em cúmplices de existência. E, enquanto houver alguém que diga “eu vejo-te” — e alguém que responda “estou aqui” — o mundo, por mais absurdo que pareça, terá um pouco mais de sentido. PB

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