Tréguas
Houve um tempo em que o céu parecia ter desaprendido a abrir-se.
Não chovia apenas lá fora — chovia dentro das gavetas, entre as páginas dos livros, nos intervalos da respiração. A luz existia, claro, mas como uma lembrança antiga, dessas que sabemos ter sido felizes sem conseguirmos reconstruir o rosto exato da felicidade. A vida, nesse período, era uma sala com cortinas pesadas. E nós, habitantes pacientes, aprendíamos a mover-nos na penumbra.
A chuva tem esse talento estranho: ensina-nos a ouvir. Cada gota é um metrónomo da espera. Ensina-nos que nem todo o silêncio é vazio, que há um tipo de crescimento que acontece na sombra — como as raízes que trabalham sem aplauso, aprofundando-se na terra escura enquanto a superfície parece imóvel.
Há dias em que a alma se torna inverno. Não um inverno dramático e literário, mas um inverno doméstico, de meias grossas e cansaço sem nome. Acordamos e o mundo pesa como um casaco molhado. Chamam-lhe tristeza, chamam-lhe cansaço, chamam-lhe qualquer coisa sazonal. Mas talvez seja apenas o corpo a pedir pausa, como a terra pede repouso depois da colheita.
E então — quase sempre sem anúncio — acontece a trégua.
A chuva não desaparece; suspende-se. Fica no ar como promessa. E nesse intervalo, tímido como quem pede licença, um raio de sol atravessa a sala. Não vem para salvar nada. Vem apenas lembrar.
O sol, quando regressa, não é um espetáculo. É um gesto. Encosta-se ao ombro, aquece a chávena esquecida na mesa, desenha uma linha dourada no chão. E, de repente, o que era apenas sobrevivência começa a parecer vida outra vez.
Não é o calor que nos transforma — é a possibilidade.
Há algo de profundamente humano na forma como respondemos à luz. Não precisamos de grandes revelações; bastam-nos uns poucos centímetros de claridade sobre a pele para acreditarmos que ainda somos capazes de florescer. Como se o corpo guardasse uma memória secreta do verão, mesmo no auge do frio.
A depressão — essa chuva longa — ensina-nos a medir o tempo de outra forma. Cada dia cinzento parece definitivo. Mas o céu nunca assina contratos eternos. Ele muda. Sempre muda.
E quando muda, não apaga o que fomos durante a tempestade. Pelo contrário: revela. O solo que resistiu, a casa que permaneceu de pé, o coração que, apesar de encharcado, continuou a bater.
Talvez a vida seja isso: uma alternância delicada entre a água que nos dobra e a luz que nos reergue. Não são inimigas. São professoras diferentes.
A chuva ensina-nos a profundidade.
O sol ensina-nos a direção.
E nós aprendemos que não somos apenas o tempo que nos atravessa, mas também a estação que escolhemos cultivar por dentro.
Há dias em que o sol ainda é tímido, quase envergonhado da sua ausência. Surge como quem testa o mundo depois de um longo afastamento. E mesmo assim — mesmo assim — há algo em nós que se abre. Um músculo invisível que se alonga. Uma esperança pequena, mas viva.
Este texto não é sobre metereologia ... Talvez seja sobre perceber que as tréguas existem. Que nenhum inverno é absoluto. Que dentro de nós há uma claridade paciente, à espera da menor fissura para atravessar.
E quando atravessa, ainda que por segundos, recorda-nos de algo essencial:
não fomos feitos para viver debaixo de chuva, mas também não seríamos os mesmos sem ela. Porque também não somos os mesmos que éramos antes da tempestade. Somos mais fundo. E talvez seja essa a beleza discreta das tréguas: não prometem eternidade. Prometem apenas respiração. Um intervalo onde a pele volta a aquecer, onde o pensamento se torna mais leve, onde o horizonte deixa de ser um muro e volta a ser caminho.