Somos nós

O meu amor tem 31 anos.
Trinta e um anos não são uma medida de tempo — são uma geografia. Uma casa construída devagar, com as mãos cheias de mundo e o coração inteiro.

O nosso amor nasceu pequeno e teimoso. Não teve aplausos, teve resistência. Houve quem duvidasse, quem inventasse sombras, quem soprasse intrigas como se o vento pudesse derrubar o que ainda mal tinha aprendido a ficar de pé. Mas o amor — quando é amor — aprende cedo a criar raízes profundas. E nós criámos raízes. Entre olhares cúmplices e silêncios que diziam tudo, fomos ficando.

Pelo caminho, houve dias de contas apertadas e sonhos maiores do que a carteira. Aprendemos a fazer muito com pouco, a transformar escassez em engenho, medo em plano, incerteza em promessa. Descobrimos que a riqueza nunca esteve no que faltava, mas no que insistia em permanecer: nós.

Amar-te foi, e é, um exercício de coragem. Não a coragem ruidosa dos heróis, mas a coragem quieta de quem escolhe ficar. Ficámos. Contra expectativas alheias, contra ruídos desnecessários, contra as pequenas guerras que o mundo gosta de oferecer aos que ousam ser felizes.

Houve também distâncias. Três meses noutro continente — e o mapa pareceu, por instantes, maior do que o coração. Aprendemos o peso das horas diferentes, a disciplina das chamadas tardias, a força de um “estou aqui” sussurrado através de oceanos. O amor, quando é verdadeiro, não se mede em quilómetros, mas na decisão diária de continuar a escolher o outro, mesmo longe.

Tivemos de mudar o mundo para cabermos nele. Ajustar rotas, reinventar planos, desafiar geografias. E, ainda assim, nunca deixámos que a distância nos ensinasse a desistir. Pelo contrário — ensinou-nos a valorizar cada regresso, cada abraço recuperado, cada silêncio partilhado sem interferências.

O nosso amor deu frutos. Frutos com nome, com riso, com passos pela casa. Frutos que cresceram à sombra da nossa persistência. E cada fruto foi também uma promessa renovada: a de que vale a pena insistir naquilo que nos faz inteiros.

Há amores que são fogo de artifício — brilham e desaparecem. O nosso é lume antigo: aquece, alimenta, transforma. Não é espetáculo, é sustento. É pão na mesa, é mão que procura a outra na madrugada, é o entendimento que dispensa palavras.

Às vezes penso que o amor é uma língua secreta que só duas pessoas sabem falar. Nós falamos a nossa há 31 anos. Uma língua feita de códigos invisíveis, de gestos mínimos, de memórias partilhadas que ninguém mais habita. Há um mundo dentro do nosso amor — e esse mundo tem a medida exata do nosso abraço.

Amar-te não foi sempre fácil. Houve invernos longos e houve dias em que tudo parecia pesado demais. Não foi fácil, mas foi sempre certo. E essa diferença é tudo.

O nosso amor é único não porque seja perfeito, mas porque é nosso. Sobreviveu a ruídos, a dificuldades financeiras, a distâncias, a ausências temporárias que nos testaram a firmeza. Cresceu. Amadureceu. Tornou-se imenso — não pelo tamanho, mas pela profundidade.

Se o amor fosse um lugar, o nosso seria uma casa com janelas abertas para o futuro. Ainda há luz para entrar. Ainda há caminhos para percorrer. Ainda há tanto para descobrir um no outro, como se o tempo não nos gastasse, apenas nos afinasse.

Trinta e um anos depois, amo-te com a mesma surpresa do primeiro dia — mas com a serenidade de quem sabe que encontrou o seu lugar no mundo.

E se me perguntarem o que é o amor, direi apenas isto:
É ficar.
É escolher.
É resistir.
É florescer.

Somos nós.

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