Sobre o amor
A vida corre. Não anda, não passeia, não pede licença. Corre como quem sabe que o tempo é um animal inquieto. E eu corro com ela — às vezes ofegante, às vezes distraída, quase sempre feliz.
Há dias em que acordo já atrasada para mim mesma. O café arrefece enquanto penso no que ainda não vivi. O amor, esse, não espera sentado: tropeça comigo nas escadas, manda mensagens sem pontuação, aparece quando estou cansada e diz “fica”. Fico. Mesmo quando não posso. Mesmo quando devia ir.
Amar, aprendi, não é desacelerar o mundo. É aprender a respirar dentro dele. É aceitar que a felicidade não vem embalada em silêncios longos, mas em ruídos bons: risos fora de hora, discussões que acabam em abraço, a vida a bater à porta enquanto ainda estamos de pijama.
Corremos porque queremos muito. Porque desejamos mais do que caberia numa vida parada. Corremos atrás de sonhos pequenos — um jantar improvisado, uma conversa que se prolonga, um “chegaste bem?” — e de sonhos grandes, desses que dão vertigens e medo bom. O amor é esse lugar estranho onde o medo não paralisa: empurra.
Às vezes penso que a felicidade não é um estado, mas um movimento. Uma sucessão de instantes imperfeitos que, vistos de longe, formam qualquer coisa parecida com sentido. Amar é aceitar o caos com delicadeza. É saber que nem tudo vai caber, mas ainda assim tentar levar tudo no bolso.
Há uma beleza particular em viver assim: meio cansada, meio inteira. Como quem sabe que não chegou, mas está no caminho certo. A vida passa rápido demais, mas não passa por mim, passa comigo dentro dela. E isso muda tudo.
Se eu pudesse pedir algo, não seria mais tempo. Seria mais presença. Mais olhos atentos. Mais mãos dadas no meio da pressa. Porque no fim, quando a corrida abranda, o que fica não é a velocidade, mas quem correu ao meu lado.
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