Sobre a amizade num tempo que passa depressa demais

A amizade é uma coisa frágil. Não no sentido em que se quebra facilmente, mas no sentido em que precisa de cuidado. Como um copo pousado à beira da mesa: não cai por acaso, cai porque alguém passou a correr.

Vivemos num tempo em que quase todos passam a correr. Corremos para cumprir prazos, para responder a mensagens que não pedimos, para sermos eficientes, disponíveis, produtivos. E, no meio dessa pressa, esquecemo-nos de algo essencial: ninguém constrói amizade por acidente.

A amizade precisa de tempo. E o tempo, hoje, parece ser sempre coisa dos outros.

Dizemos muitas vezes “temos de combinar”, como quem diz “não agora”. Prometemos cafés que nunca acontecem, conversas que ficam suspensas, abraços adiados para um dia qualquer que não chega. Não é por falta de carinho — é por excesso de ruído. O mundo fala alto demais e nós aprendemos a ouvir mal.

As relações tornaram-se frágeis porque se tornaram rápidas. Trocam-se pessoas como se trocam aplicações: quando deixa de funcionar como queremos, apaga-se. A lealdade, essa palavra antiga e pouco prática, parece hoje quase ingénua. Exige permanência. E permanecer é um ato de resistência.

Ser leal é ficar quando não é confortável. É não desaparecer ao primeiro desencontro. É não transformar o silêncio do outro numa ofensa pessoal. É compreender que há dias em que a amizade não é riso nem presença constante, mas apenas respeito pelo tempo interior do outro.

O problema não é deixarmos de falar todos os dias. O problema é deixarmos de nos importar.

Há amizades que sobrevivem ao tempo e outras que morrem dele. Morrem porque ninguém as rega. Porque ninguém pergunta “como estás?” esperando realmente ouvir a resposta. Porque ninguém tem paciência para atravessar o lado menos luminoso do outro.

E, no entanto, é aí que a amizade acontece: no lugar onde não é preciso representar.

A amizade não é estar sempre de acordo. É continuar, mesmo quando discordamos. Não é estar sempre presente. É saber que podemos voltar. Não é exigir explicações constantes. É confiar.

Talvez hoje falte isso: confiança. Confiança de que o outro não vai embora só porque falhámos. Confiança de que não precisamos estar sempre bem para sermos amados. Confiança de que a amizade não é um contrato de utilidade, mas um compromisso de humanidade.

A amizade verdadeira não pede rapidez. Pede profundidade. Não pede atenção constante. Pede presença inteira, mesmo que rara. Não pede perfeição. Pede verdade.

E talvez o maior gesto de amizade, hoje, seja simples e revolucionário: abrandar. Sentar. Ouvir. Ficar.

Num mundo que valoriza quem chega primeiro, a amizade valoriza quem fica.

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