Ser forte todos os dias cansa — e está tudo bem
Há uma expectativa silenciosa colocada sobre muitas mulheres: ser forte. Sempre. Em todas as circunstâncias. Ser a que aguenta, a que resolve, a que organiza, a que apoia, a que continua mesmo quando está exausta. A que sorri enquanto carrega mais do que devia.
Ser forte tornou-se quase um elogio obrigatório. “Ela é tão forte.” Diz-se com admiração. E é bonito reconhecer resiliência. O problema começa quando a força deixa de ser escolha e passa a ser obrigação.
Porque a verdade é simples e pouco dita: ser forte cansa.
Cansa ser a adulta funcional quando por dentro só se queria colo. Cansa ser a equilibrada quando as emoções estão desalinhadas. Cansa ser a que entende tudo, perdoa tudo, resolve tudo. Cansa ser a versão estável quando o mundo interno está em tempestade.
Há um tipo de força que é saudável — aquela que nasce da coragem, da autonomia, da capacidade de enfrentar a vida. Mas há outra força, mais silenciosa e pesada, que é construída à base de contenção constante. Engolir lágrimas. Adiar pausas. Fingir que não doeu. Repetir “está tudo bem” quando não está.
Essa força excessiva transforma-se em peso.
Ninguém ensina que vulnerabilidade também é maturidade. Que admitir cansaço não é fraqueza. Que pedir ajuda não diminui ninguém. Pelo contrário: revela consciência dos próprios limites.
Há dias em que não queremos ser exemplo de nada. Não queremos ser inspiração. Não queremos ser a que aguenta. Queremos apenas ser humanas — com medo, com dúvida, com necessidade de descanso.
E está tudo bem.
Está tudo bem não ter resposta imediata. Está tudo bem não conseguir carregar tudo sozinha. Está tudo bem sentir que já se foi forte demais durante tempo demais.
Força verdadeira não é rigidez. Não é ausência de emoção. Não é indiferença à dor. Força verdadeira inclui pausas. Inclui lágrimas. Inclui reconhecer que não se consegue continuar no mesmo ritmo.
Existe uma diferença enorme entre ser forte e sentir-se obrigada a parecer forte.
Quando a força é escolha, ela sustenta. Quando é imposição, ela esgota.
Permitir-se descansar é um ato de coragem. Permitir-se falhar é um ato de honestidade. Permitir-se dizer “hoje não consigo” é um ato de respeito próprio.
O mundo não desmorona porque decidimos parar. A imagem de “mulher inabalável” pode até estremecer, mas talvez isso seja libertador. Talvez não precisemos ser inabaláveis. Talvez possamos ser flexíveis, humanas, imperfeitas.
Ser forte o tempo todo cria uma solidão invisível. Porque quando todos acreditam que aguentamos tudo, poucos perguntam se precisamos de ajuda.
Por isso, se estiveres cansada de ser forte, ouve isto com cuidado: não há nada de errado contigo. Não estás a falhar. Não estás a ser dramática. Estás apenas a sentir o peso de ter sido resistente por demasiado tempo.
E resistência sem descanso não é virtude — é desgaste.
Talvez a verdadeira força esteja precisamente em reconhecer quando é hora de baixar a armadura. Em perceber que não precisamos provar constantemente que somos capazes. Em entender que suavidade também é poder.
Ser forte é bonito. Mas ser inteira é mais importante.
E às vezes, para continuar inteira, é preciso admitir: estou cansada.
Eh pá, e está tudo bem.
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