Ruído do Nosso Tempo
Há uma estranha solidão no meio do ruído do nosso tempo. Nunca falámos tanto, nunca escrevemos tanto, nunca opinámos tanto — e, ainda assim, escutamos cada vez menos. Como se ouvir verdadeiramente o outro se tivesse tornado um gesto quase subversivo, um ato raro, quase incómodo, num mundo que privilegia a rapidez da resposta em vez da profundidade da presença.
Vivemos cercados de vozes, mas carentes de escuta. E talvez o problema não seja apenas a falta de empatia, mas a incapacidade de nos demorarmos no sofrimento alheio sem o traduzirmos imediatamente para nós mesmos. O outro fala, e nós já estamos a pensar na nossa história, na nossa dor, na nossa versão, na nossa verdade. Como se toda a conversa fosse um espelho e não uma janela.
Há uma rigidez que se instalou nas relações humanas. Uma espécie de endurecimento invisível. Defendemos ideias como se fossem trincheiras, identidades como se fossem armaduras, opiniões como se fossem territórios invioláveis. E, nesse processo, deixamos de nos sentar — simplesmente sentar — e ouvir. Ouvir sem interromper, sem corrigir, sem comparar, sem julgar. Ouvir como quem reconhece que o mundo do outro é tão vasto quanto o nosso, mesmo quando não o compreendemos totalmente.
Talvez o egocentrismo contemporâneo não seja apenas vaidade; talvez seja também medo. Medo de sentir o peso do sofrimento alheio. Medo de reconhecer que a dor do outro nos convoca, nos responsabiliza, nos desestabiliza. É mais fácil recolhermo-nos na confortável narrativa das “nossas verdades” do que atravessar a incerteza de tentar compreender a verdade do outro.
E assim, pouco a pouco, a compaixão vai sendo substituída por uma espécie de indiferença educada. Dizemos “eu compreendo”, mas não permanecemos. Dizemos “estou aqui”, mas estamos distraídos. Dizemos “ouve-me”, mas não ouvimos. A presença tornou-se superficial, fragmentada, intermitente — como se a atenção fosse um recurso escasso que só merecesse ser investido em nós próprios.
Há algo de profundamente absurdo nisto: desejamos ser compreendidos, mas não nos dispomos a compreender; desejamos ser vistos, mas não vemos; desejamos ser acolhidos, mas tornamo-nos cada vez menos disponíveis para acolher. Como se a empatia exigisse um esforço que já não queremos fazer. Como se parar para escutar fosse perder tempo, quando, na verdade, é talvez a única forma de o habitar com sentido.
Escutar verdadeiramente alguém implica suspender o ego. Implica admitir que a nossa experiência não é a medida de todas as experiências. Implica aceitar que a dor do outro não precisa de ser resolvida, corrigida ou comparada — apenas reconhecida. E isso exige uma flexibilidade emocional que parece estar a desaparecer, substituída por respostas rápidas, certezas rígidas e discursos autocentrados.
No fundo, a falta de empatia dos nossos dias revela uma pobreza silenciosa: a incapacidade de coexistir com a complexidade humana. Preferimos simplificar o outro, etiquetá-lo, reduzir a sua dor a uma explicação rápida, porque compreender exige tempo, presença e uma certa humildade existencial.
Talvez o verdadeiro gesto revolucionário hoje seja simples: parar, olhar nos olhos, e escutar sem a urgência de responder. Porque, num mundo que grita as próprias verdades, o ato mais humano pode ser, paradoxalmente, o silêncio atento diante da verdade do outro. E nesse silêncio, por breve que seja, renasce a possibilidade da compaixão — não como discurso, mas como presença.