Reciprocidade
Pergunto: “Está tudo bem?”
E espero. Não pela resposta longa. Apenas por aquele pequeno gesto que confirma que existe do outro lado — “E contigo?”
Mas o eco raramente vem. Ou vem de raras pessoas.
Há algo de subtil na falta de reciprocidade. Não é violência. Não é ruptura. É um vazio pequeno, repetido. Um esquecimento em datas importantes. Um silêncio quando era preciso presença. Um entusiasmo morno quando partilhamos uma alegria. Uma distração quando falamos de algo que dói.
Vivemos tempos ásperos. Cada um centrado na sua agenda, na sua carreira, nas suas metas, nas relações que rendem alguma vantagem futura. Diz-se “tenho muitos amigos” como quem enumera contactos úteis. Mas amizade não é rede. É raiz.
E raiz exige tempo. Exige entrega. Exige um tipo de atenção que não se mede em produtividade.
Há quem saiba receber, mas não saiba dar. Há quem goste de ser escutado, mas não aprendeu a escutar. Há quem procure colo, mas não ofereça ombro.
E então surge a pergunta que ninguém gosta de fazer:
num momento de solidão clara, quem fica?
Num momento de dificuldade real, quem permanece sem calcular custos?
Num momento de alegria genuína, quem vibra connosco sem inveja, sem comparação, sem pressa?
Quando precisamos falar, quantos escutam sem nos corrigir?
Sem transformar a nossa dor numa palestra?
Sem minimizar, sem competir, sem apressar conclusões?
Escutar é raro. Escutar é quase um ato espiritual.Exige que o outro deixe de ser o centro por alguns minutos.
Mas vivemos numa época de centralidades excessivas.
Há um apego quase obsessivo ao que é fútil, ao que é imagem, ao que é currículo. Investe-se na carreira como se ela fosse eternidade. Cultivam-se parcerias como quem constrói pontes descartáveis. Relaciona-se por utilidade, não por verdade.
As relações tornaram-se acordos silenciosos de conveniência. Menos sinceridade, mais estratégia.
E no meio disso, a amizade — aquela que exige exposição, vulnerabilidade, tempo, presença — torna-se quase um luxo.
Talvez porque investir numa amizade obriga primeiro a investir em si. E nem todos gostam do que encontram quando se encontram a sós.
Quem somos quando ninguém nos vê?
Quem somos sem aplauso, sem cargo, sem função?
Gostamos mesmo da pessoa que somos no silêncio?
Porque só quem suporta a própria companhia consegue oferecer companhia verdadeira. Só quem conhece as suas sombras consegue acolher as do outro. Só quem fez alicerces internos consegue construir relações que resistem.
O resto são estruturas bonitas sem fundação.
Há uma tristeza discreta em perceber que algumas pessoas não sabem amar na mesma proporção em que recebem. Não por maldade. Mas por incapacidade. Nunca aprenderam a dar-se. Nunca lhes ensinaram que amizade é doação e não troca.
Mas a vida cobra coerência. Um dia, as carreiras mudam. As parcerias dissolvem-se com a mesma leveza com que começaram. Os interesses transformam-se.
E quem não construiu raízes descobre que está rodeado — mas só.
A amizade verdadeira é exigente. Pede presença quando é incómodo. Pede escuta quando é mais fácil falar. Pede celebração sincera quando o outro brilha.
Não é ruidosa. Não é exibida. Mas quando existe, sustenta.
Talvez a pergunta que vos faço hoje não seja apenas “quem está lá por mim?”
Talvez seja também perguntarem-se: “eu estou lá?”
Porque a reciprocidade começa no espelho. E a qualidade das nossas amizades diz sempre, silenciosamente, algo sobre a qualidade da nossa própria entrega. No fim, não serão os cargos que nos acompanharão à mesa num dia difícil.
Não serão as conquistas que atenderão o telefone às duas da manhã.
Não serão as parcerias estratégicas que saberão reconhecer o silêncio quando a voz falha.
Serão pessoas.Poucas, talvez. Mas inteiras.
A amizade verdadeira não se anuncia. Revela-se. Na constância. Na memória das datas pequenas. No “e contigo?” que não é formalidade, mas cuidado. Na presença que não precisa de palco.
Ela não vive de excesso, vive de profundidade. E talvez o maior fracasso não seja estar sozinho, mas ter passado pela vida rodeado de gente sem nunca ter construído uma ligação que sobreviva ao interesse.
Porque no fim, quando as camadas externas caem — profissão, utilidade, imagem — resta apenas a verdade das relações que fomos capazes de sustentar.
E essa verdade é implacável.
Quem investiu no supérfluo terá o supérfluo.
Quem construiu alicerces terá abrigo.
A amizade exige tempo, vulnerabilidade e uma espécie rara de coragem: a de dar sem garantia de retorno imediato. Mas é precisamente essa dádiva que a torna duradoura.
No fundo, não se trata de quantos nos rodeiam.
Trata-se de quem permanece.
E de quem escolhemos ser — quando ninguém está a olhar.
Comentários
Enviar um comentário