Quem somos nós quando o outro nos pede um pouco mais de humanidade?

Domingo Cinzento

O domingo caiu como um pano pesado sobre a cidade. A chuva não batia — insistia. Escorria pelas paredes, pelos telhados, pelas pessoas, como se quisesse ensinar alguma coisa que ninguém estava disposto a aprender. Na televisão, a voz neutra avisava novos temporais, mas o verdadeiro mau tempo não vinha do céu. Vinha de dentro. Um domingo cinzento tem esse poder: ilumina o que costumamos esconder à pressa durante a semana.

Há dias assim em que o egoísmo sobe à superfície, como óleo em água suja. As pessoas recolhem-se, não para proteger os outros, mas para proteger apenas a si mesmas. Fecham portas, cruzam braços, desviam o olhar. Ajudar dá trabalho, compromete, obriga a sentir — e sentir dói. O mais duro é quando essa ausência vem de quem está próximo de nós. De quem devia ser abrigo, mas às vezes é apenas mais um lugar onde a chuva entra. Quando a indiferença tem rosto conhecido, a dor não grita: mastiga-se devagar, até ficar difícil de engolir.

Magoa-me esse mundo de umbigos expostos, pessoas curvadas sobre si próprias como se fossem o centro exato do universo. Vão à igreja como quem cumpre um horário, repetem palavras antigas com a boca cheia de fé e as mãos vazias de gestos. Há muitos joelhos no chão e poucos ombros disponíveis. Fala-se de amor ao próximo como se fosse metáfora, quando na verdade é urgência. O essencial falha sempre nos momentos mais simples: estar, ouvir, estender a mão.

Eu creio num Deus menos interessado em orações decoradas e muito mais atento ao que fazemos quando ninguém está a ver. Um Deus que não contabiliza pai-nossos, mas repara em quem atravessa a rua para ajudar. Um Deus que não se impressiona com altares, mas com empatia. Talvez por isso, àss vezes, a chuva caia com mais intensidade: para lavar o excesso de palavras e lembrar que a fé verdadeira não mora na boca, mora nos gestos. E mesmo triste, mesmo pesado, este domingo ensina — há uma beleza severa em perceber quem somos quando o céu fecha e o mundo pede, em silêncio, um pouco mais de humanidade.

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