Quartas-feiras
Comecei às oito e meia, sem grande cerimónia, e mergulhei de cabeça em quatro horas seguidas com o décimo segundo ano. Dar duro é a expressão certa: concentração cerrada, raciocínios longos, silêncio atento misturado com perguntas que chegam quando o pensamento tropeça. Há dias em que o tempo se mede assim — em exercícios resolvidos, em olhares que finalmente entendem, em pausas que não chegam a ser pausas.
Almocei no lugar do costume das quartas-feiras. Rápido, como sempre, porque só há uma hora e ela passa depressa demais quando ainda se está dentro do dia. O prato veio, foi-se, e ficou a sensação de que comer é apenas um intervalo entre dois blocos de vida.
A tarde começou com os mais novos. E há qualquer coisa de diferente em ensinar os mais pequenos, algo que não se explica bem, mas se sente logo à entrada. Dão abraços quentinhos, desses que não pedem autorização, sorriem felizes por me verem e contam o dia como se fosse uma história urgente. As novidades das férias chegam cheias de entusiasmo, detalhes aparentemente simples, mas absolutamente essenciais. Com eles, o tempo abranda um pouco, mesmo quando o programa insiste em avançar.
Seguimos fortes com o décimo primeiro ano. E sim, continuo a adorar análise combinatória. Adoro a matéria, adoro ensiná-la, adoro ensiná-las. Há uma beleza particular em mostrar que há lógica onde parecia confusão, caminhos possíveis onde antes só havia bloqueio. Ensinar, nesses momentos, é quase um ato de partilha silenciosa: eu ofereço ferramentas, eles oferecem atenção.
Lá fora, o dia manteve-se chuvoso, frio, denso, escuro. Um daqueles dias que parecem feitos para recolher. Cá dentro, porém, havia luz e alegria — e talvez por isso seja mais fácil trabalhar assim. Quando o mundo abranda, o essencial ganha espaço.
Terminei o dia com a mais pequenina de todas. O sorriso mais doce e mais malandro, numa combinação perfeita. Há pessoas que sabem encerrar um dia melhor do que qualquer relógio. Ela ajudou-me a fechar o meu com a ternura certa, como quem apaga a luz devagar para não acordar o silêncio.
Comentários
Enviar um comentário