Quando o Conforto Não Chega a Todos

Dia Agridoce

Hoje é segunda-feira.
Chove. Faz frio.

Há aulas para dar e, na minha sala, está quentinho. A água corre nas torneiras como se fosse um direito antigo, a luz acende-se sem hesitar, o chá fuma devagar, o café acorda o corpo. Tudo funciona. Tudo está no sítio. Há uma espécie de paz doméstica que nos embala e quase nos faz esquecer o mundo lá fora.

Quase.

Porque lá fora há casas que já não existem. Há portas que deixaram de dar para dentro. Há ruas transformadas em rios sem margens e aldeias suspensas num silêncio onde não chega nada — nem pão, nem médicos, nem notícias, nem promessas. Há pessoas ilhadas não pela água apenas, mas pela ausência. E há animais. Sempre os animais. Assustados, perdidos, com fome, à espera de alguém que não consegue chegar. Morrem devagar, que é a forma mais injusta de morrer.

É estranho como a gratidão pode doer.

Sinto-me grata por ter tudo isto — o calor, o abrigo, a possibilidade de ensinar, de cuidar, de dar. Grata por poder olhar para quem me rodeia e dizer: estou aqui. Posso ajudar-te. Posso ficar. Posso ouvir. E ao mesmo tempo, o coração encolhe, como se soubesse que há um limite invisível para a nossa presença no mundo. Um ponto a partir do qual já não chegamos, por mais que queiramos.

Hoje é um dia agridoce.
Doce porque há café quente e vozes na sala, porque ainda acreditamos que ensinar é uma forma de resistência. Amargo porque a consciência não se deixa adormecer. Porque saber é carregar. Porque não há conforto que apague a imagem dos que ficaram para trás.

Talvez seja isto ser humano: segurar duas verdades ao mesmo tempo. A de que temos muito. E a de que nunca será suficiente enquanto alguém não tiver nada.

Por isso hoje ensino com mais cuidado. Falo com mais brandura. Olho com mais atenção. Dou tudo o que posso aos que estão perto — não como compensação, mas como promessa silenciosa de que o mundo ainda pode ser um lugar onde alguém repara, alguém sente, alguém não passa indiferente.

E quando a chuva cair mais forte, que pelo menos saibamos isto: há corações a tentar chegar onde os caminhos ainda não chegam.

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