🌙 Porque é que pensamos demais (e quase sempre à noite)?

Existe uma hora secreta no dia.

Não aparece nos relógios.
Mas vocês sabem quando ela chega.
E eu também sei.

É aquela hora em que o quarto fica em silêncio,
o telemóvel já não vibra tanto,
as luzes se apagam
— e a cabeça decide acender.

Durante o dia vocês parecem seguras.
Riem alto.
Respondem rápido.
Fazem planos como se o futuro fosse uma estrada já desenhada.

E eu vejo isso.

Mas também sei que, às 23h47, muitas de vocês se tornam investigadoras da própria vida.

— Será que eu disse aquilo num tom estranho?
— Porque é que ela respondeu só com “ok”?
— E se toda a gente achar que eu sou demasiado? Ou insuficiente?

Vou dizer-vos uma coisa com honestidade:
essa voz não é exclusiva dos 16 ou 17 anos.

Ela continua a aparecer mais tarde.
Em mim também.

A diferença é que, com o tempo, aprendemos a reconhecê-la.

A noite tem este poder estranho:
ela amplia pensamentos pequenos.

De dia, um “ok” é só uma resposta rápida.
À noite, é um possível afastamento emocional,
um prenúncio de drama,
quase um documentário inteiro narrado pela insegurança.

O cérebro é criativo.
Especialmente quando está cansado.

Ele pega numa frase simples
e transforma num enredo complexo,
cheio de hipóteses que raramente são verdadeiras.

E o curioso é isto:
quase sempre a história que inventamos é contra nós.

Raramente pensamos:
“Provavelmente está ocupada.”
Ou:
“Talvez esteja tudo normal.”

Não.
A mente escolhe a versão em que fizemos algo errado.

E eu sei que isso pode cansar.

Mas escutem-me com calma:

Pensar demais não é fraqueza.
É sensibilidade.

Quem pensa muito, importa-se.
Quem se importa, sente.
E quem sente, vive com intensidade.

E viver com intensidade aos 16 ou 17 anos não é defeito.
É humanidade em estado bruto.

O que ainda estamos a aprender — vocês e eu —
é que nem todo pensamento merece confiança.

Pensamentos não são factos.
São hipóteses.
São histórias mal iluminadas.
São frases começadas com “e se…” que raramente têm provas.

Há algo que quero que saibam:

Ninguém está a observar-vos com a lupa que imaginam.

As outras pessoas também estão nas suas camas,
nas suas próprias 23h47,
a rever conversas,
a duvidar de si mesmas,
a perguntar-se se disseram algo estranho.

Eu já tive 16 anos.
E continuo, às vezes, a ter noites assim.

A diferença é que hoje sei fazer uma pergunta simples:

“Tenho provas disto… ou estou só cansada?”

Muitas vezes, é só cansaço.
Ou medo.
Ou vontade de ser aceite.

E isso é profundamente humano.

Talvez crescer não seja deixar de pensar demais.

Talvez seja aprender a conversar com a própria mente.

Quando ela disser:
— Estragaste tudo.

Podem responder:
— Ou talvez esteja apenas a exagerar.

Quando ela disser:
— Toda a gente te está a julgar.

Perguntem:
— Toda a gente mesmo?

Às vezes, maturidade começa numa pergunta tranquila.

Se alguma vez se sentirem “demais” ou “de menos”, lembrem-se disto:

Vocês estão a descobrir quem são.
E isso não é um processo silencioso.
Nem perfeito.
Nem linear.

É feito de dúvidas, tentativas, falhas, recomeços.

E não estão sozinhas nisso.

Nem nas inseguranças.
Nem nas 23h47.
Nem nos pensamentos exagerados.

Eu não vos julgo por pensarem demais.
Eu compreendo.

E estou aqui —
não à frente,
não acima,
mas ao lado.

Talvez hoje, quando essa hora secreta chegar,
em vez de reverem cada detalhe do dia,
possam experimentar algo diferente:

Respirem fundo.
E digam à vossa mente, com gentileza:

“Obrigada pela preocupação.
Mas agora vou descansar.”

Porque há coisas que parecem enormes à noite
e, de manhã, cabem na palma da mão.

E isso também eu já aprendi. 🤍

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