PHDA - Quando vivemos em velocidade invisível
Viver em velocidade invisível
Durante muito tempo pensei que o meu ritmo era apenas parte da minha personalidade. Diziam que eu era dinâmica, produtiva, apaixonada pelo que fazia. Eu também acreditava nisso — e, na verdade, continuo a acreditar que há beleza na intensidade com que vivo o mundo.
Mas há intensidades que não são escolha. São sobrevivência.
Viver com PHDA, para mim, é habitar um pensamento que raramente abranda. É ter ideias a nascerem ao mesmo tempo que outras ainda nem terminaram de existir. É sentir uma urgência constante, como se o tempo estivesse sempre um passo à frente de mim — e eu a correr para o alcançar, mesmo quando ninguém me pediu para correr.
Durante anos, essa energia foi vista como capacidade. E muitas vezes também foi. Ajudou-me a construir, a criar, a cuidar, a ensinar, a estar presente para tantas pessoas. Mas existe um lado menos visível: o cansaço de quem nunca encontra verdadeiramente o botão de pausa.
Descobri, com o tempo, que há um tipo de exaustão que não paralisa. Pelo contrário — acelera. Continuamos a cumprir tarefas, a responder, a produzir, a cuidar de tudo e de todos. Por fora, parece funcionamento exemplar. Por dentro, é como tentar respirar enquanto se corre uma maratona que nunca teve linha de partida, nem tem meta definida.
Chamam-lhe, por vezes, burnout funcional. Eu aprendi a reconhecê-lo como o momento em que o corpo continua, mas a mente começa a pedir silêncio de formas que nem sempre sabemos escutar.
A PHDA não é apenas distração ou excesso de energia, como muitas vezes é simplificada. É também sensibilidade amplificada, pensamento em múltiplas direções, dificuldade em regular o ritmo interno e, muitas vezes, uma exigência pessoal que nasce do medo de falhar aquilo que o mundo espera de nós — ou aquilo que acreditamos que o mundo espera.
Há dias em que me sinto capaz de fazer mil coisas. Há outros em que o esforço invisível para organizar o pensamento é maior do que qualquer tarefa que consigo mostrar. E aprender a aceitar essa oscilação tem sido um dos exercícios mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais humanos da minha vida.
Escrevo isto não como alguém que encontrou respostas definitivas, mas como alguém que está a aprender a fazer perguntas melhores. Perguntas como:
- Será que produtividade é sempre sinónimo de valor?
- Será que parar é falhar — ou é sobreviver com mais cuidado?
Tenho vindo a perceber que viver com intensidade não precisa significar viver em autoexigência permanente. Que cuidar de mim não é desistir das minhas capacidades, mas permitir que elas existam sem me consumirem.
Talvez a maior mudança não esteja em desacelerar o pensamento — porque, para muitas pessoas com PHDA, isso nem sempre é possível — mas em aprender a construir pausas gentis dentro dele. Pequenos espaços onde não é preciso provar nada, nem cumprir nada, apenas existir.
Se há algo que gostaria que outras pessoas soubessem é que nem todo o cansaço é visível. E que alguém pode parecer extremamente funcional e, ainda assim, estar a fazer um esforço enorme apenas para manter o equilíbrio.
Falar sobre isto é, para mim, um gesto de cuidado coletivo. Porque durante muito tempo acreditei que precisava dar conta de tudo sozinha. Hoje começo a perceber que partilhar experiências também é uma forma de descanso.
Ainda estou a aprender o meu próprio ritmo. Talvez esteja apenas a aprender que viver não precisa ser sempre correr.