Notas de um dia comum
O dia começou cedo, antes de o corpo perceber que já estava atrasado. Às oito da manhã já ensinava matemática, com a voz ainda a aquecer e o pensamento já a correr à frente. Há qualquer coisa de curioso em explicar números quando o dia ainda está por explicar. Às nove terminei, mas terminar é uma palavra enganadora — apenas mudei de andamento. Entrou o outro ritmo: fichas para preparar, cópias para tirar, listas mentais que nunca chegam a escrever-se. Pequenas vidas a pedir organização, mesmo quando não o dizem em voz alta.
Almocei depressa, como quase sempre. Nunca me apetece perder tempo a comer, embora goste de comer — às vezes. É uma contradição que já aceitei. Talvez haja dias em que a fome é outra e não cabe num prato. O relógio avançava enquanto eu fingia que o ignorava.
Às dezasseis voltei a começar. Um aluno doente atrasou o início, e esse atraso teve qualquer coisa de humano, como se o dia tivesse respirado fundo antes de continuar. E então aconteceram as visitas. Um aluno apareceu para mostrar as notas, orgulhoso, com aquele sorriso que só quem conquista um vinte a matemática sabe trazer. Disse “nosso” vinte, e isso ficou a ecoar mais do que a própria nota. Trouxe consigo a Miss Di, também de parabéns, e pouco depois surgiu uma ex-aluna - Mada. Foi um daqueles encontros improváveis que não estavam marcados, mas que fazem sentido depois de acontecerem.
Faltou tirar a fotografia para marcar o momento— e talvez ainda bem. Há momentos que não precisam de prova, só de memória. Gosto dela. Gosto da companhia dela. A tarde ficou mais clara por dentro, mesmo com o céu decidido a manter-se cinzento.
Choveu o dia inteiro. Um dia tristonho, em tons de cinza rato, espesso, daqueles que parecem colar-se aos prédios e aos pensamentos. A Emília dormiu toda a tarde, indiferente às intempéries. Só acordou para pedir comida, com a autoridade silenciosa que só os gatos dominam. Depois voltou a dormir, como se o mundo pudesse esperar. Devia aprender com ela tanta coisa. Especialmente essa arte de não se deixar afetar pelo que não depende de si.
O dia avançou sem pedir licença. Ensinei. Fiz aquilo que mais gosto de fazer. Contagens e análise combinatória — uma matéria que assusta à primeira vista, mas que, quando se entra nela, revela uma espécie de brincadeira secreta. Escolhas, possibilidades, caminhos que se cruzam. Talvez seja por isso que gosto tanto: porque no fundo fala da vida, disfarçada de números. Diverti-me. Os alunos estavam bem-dispostos, e quando isso acontece a matemática deixa de ser um obstáculo e passa a ser um lugar de encontro.
As horas alongaram-se. O dia foi acontecendo e o quadro foi ficando mais limpo, a sala mais vazia, o cansaço mais presente. Terminei tarde — já passava das nove e meia quando dei por mim a fechar o dia. Ainda respondi a dúvidas pelo WhatsApp, porque o ensino raramente acaba quando o horário termina. Há perguntas que aparecem depois, quando o silêncio permite pensar.
Lá fora continuava a chover. Cá dentro, o dia assentava devagar. Não aconteceu nada de extraordinário, e talvez por isso tenha acontecido tudo o que importa: encontros breves, pequenas vitórias, uma tarde animada, uma gata indiferente ao caos, números que fizeram sentido, pessoas que passaram pela minha sala e pela minha vida.
Foi só um dia. Mas foi inteiro.
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