“No meio do inverno, descobri finalmente que havia em mim um verão invencível."

O sol chegou sem bater à porta, como fazem as boas notícias. Entrou pelas frestas das persianas, pousou nas secretárias, demorou-se nos cadernos ainda abertos da véspera. E, de repente, a casa — e a escola, e nós — deixámos de ser inverno.

Andávamos precisados de sol. Precisados como quem precisa de uma palavra boa dita na hora certa. Precisados como quem atravessa dias cinzentos com o casaco apertado até ao queixo, não por causa do frio, mas por causa do peso. Havia um cansaço invisível a morar-nos nos ombros, uma espécie de neblina interior que nos fazia andar devagar, pensar devagar, sorrir devagar.

E então o sol voltou.

Não fez discurso. Não prometeu nada. Apenas brilhou.

Ontem, os alunos entraram na sala com uma luz diferente no rosto. “É tão bom ter o sol de volta”, diziam, como quem fala de um amigo que regressa de viagem. Sorriam com mais vontade, como se o sorriso tivesse sido guardado numa gaveta durante semanas e agora finalmente pudesse respirar. Um deles confessou-me, com a simplicidade de quem descobre um segredo: “Acordei mesmo de bem com a vida hoje… até trabalhei melhor.” E trabalhou. Trabalharam. Como se a claridade tivesse afinado os pensamentos, como se cada raio fosse uma vírgula luminosa a organizar o texto do dia.

O sol tem esta habilidade discreta de nos lembrar que a vida recomeça todos os dias. É uma metáfora que se repete sem se gastar: levanta-se depois da noite, insiste depois da chuva, regressa depois da ausência. Ensina-nos que nenhum inverno é definitivo, que há sempre uma fresta por onde a luz encontra caminho.

Há qualquer coisa de profundamente terapêutico na luz. Não resolve tudo — não paga contas, não elimina medos, não apaga as incertezas — mas abre janelas dentro de nós. E, quando as janelas se abrem, o ar circula, os pensamentos arejam, as tristezas perdem o bolor.

Hoje percebi que o bem-estar mental também pode ser uma estação do ano. E que, às vezes, começa num gesto tão simples como deixar o sol tocar a pele. A luz pousava nas mesas e parecia dizer: “Recomeça.” E nós, obedientes e agradecidos, recomeçámos. Com mais leveza. Com mais esperança. Com mais verdade.

O sol não é apenas uma estrela distante. É uma promessa diária de que a vida, apesar de tudo, insiste em florescer. E nós, que andávamos um pouco à sombra de nós mesmos, voltámos a caber no próprio sorriso.

Talvez seja isso a felicidade: este instante claro em que a luz nos atravessa e nos devolve àquilo que sempre fomos — seres feitos para amanhecer.

PB

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