Hoje venceu a democracia
Hoje não venceu apenas um partido, nem uma sigla, nem um conjunto de promessas eleitorais. Hoje venceu algo maior, mais lento e mais profundo: venceu a democracia, venceu o bom senso, venceu a capacidade coletiva de um povo pensar para lá do medo e da raiva.
Os portugueses foram chamados a escolher entre dois caminhos antigos como a própria história humana. De um lado, o populismo fácil, a demagogia que grita soluções simples para problemas complexos, que divide para ganhar força, que aponta o dedo para esconder o vazio. Do outro, a liberdade exigente, aquela que não se impõe aos berros, mas se constrói com responsabilidade, diálogo e consciência. Hoje, Portugal escolheu a liberdade.
Escolheu a ideia de que a democracia não é perfeita — mas é o melhor lugar onde podemos discordar sem nos destruirmos. Onde podemos votar sem nos odiarmos. Onde podemos perder sem deixar de pertencer. A democracia venceu porque os portugueses souberam que ela não vive de salvadores, mas de cidadãos.
Hoje reafirmou-se algo essencial: Portugal não é de uns contra os outros. Portugal é de todos. Dos que concordam e dos que discordam. Dos que nasceram cá e dos que cá escolheram viver. Dos jovens cheios de futuro e dos mais velhos cheios de memória. Sem exceção.
Amar Portugal não é gritar mais alto do que o vizinho. É cuidar. É incluir. É recusar a tentação de excluir alguém para nos sentirmos maiores. Um país não se fortalece quando levanta muros invisíveis entre os seus, mas quando constrói pontes — mesmo quando isso dá trabalho.
Hoje, os portugueses mostraram que sabem distinguir entre quem usa o medo como arma e quem acredita na dignidade como base. Que sabem que a liberdade não é o direito de esmagar o outro, mas o dever de o reconhecer como igual. Que sabem que o futuro não se constrói com ódio reciclado do passado.
Este é o Portugal do bom senso: imperfeito, plural, barulhento às vezes, mas profundamente humano. Um Portugal que não vira as costas a ninguém. Um Portugal solidário, onde a palavra “nós” é maior do que qualquer rótulo.
Hoje não terminou nada. Hoje começou, outra vez, o trabalho difícil e bonito de sermos um país juntos. E isso — isso é uma vitória que vale a pena celebrar.