Herança

Os sonhos nunca me apareceram enquanto dormia. Sempre me chegaram acordada, quando a vida começava a pesar mais do que o corpo. Lembro-me de ser pequena e já sentir esse peso — não sabia nomeá-lo, mas reconhecia-o. Era como se alguma coisa em mim estivesse sempre a chamar-me para a frente, mesmo quando eu queria ficar.

Cresci na serra, onde os dias começavam cedo e o frio ensinava a acordar depressa. No inverno, o chão gelava antes do sol nascer e as mãos aprendiam a trabalhar mesmo dormentes. Lembro-me das botas molhadas, do cheiro da lenha, do silêncio grande que só a serra sabe fazer. Ali aprendi que o mundo não se explica — atravessa-se.

Nunca aprendi a sonhar sentada. Ainda criança, percebi que as coisas importantes exigiam corpo. Subir caminhos íngremes, ajudar no que fosse preciso, cair e levantar sem grande cerimónia. A vida ensinou-me cedo que querer não basta. É preciso insistir. É preciso aguentar. E, às vezes, é preciso seguir mesmo quando ninguém garante que vale a pena.

A fé começou assim, sem nome. Não era feita de promessas bonitas, mas de repetição. De acordar todos os dias e fazer o que tinha de ser feito. De continuar quando o cansaço apertava. Ainda hoje é essa fé que me sustém quando o corpo vacila — discreta, teimosa, quase silenciosa, a dizer-me apenas: continua.

Sou da serra. E isso não é apenas geografia; é forma de estar. Sou feita do granito da Serra da Estrela, moldado pelo frio e pelo tempo. Aprendi com a neve a não ter medo do esforço, com o vento a aceitar a solidão, com os caminhos difíceis a não esperar atalhos. A serra ensinou-me cedo que ninguém nos segura de pé — aprendemos sozinhas.

Mas antes de compreender a serra, houve uma mulher.

Chamava-se Gracinda. A minha avó. Mulher das Beiras. Pequena de corpo, imensa de presença. Lembro-me das suas mãos — sempre ocupadas, sempre firmes — e do modo como carregava o mundo sem nunca falar do peso. Não fazia discursos, não se explicava. Fazia.

Via-a levantar-se cedo, atravessar dias duros com um silêncio digno, resolver o que havia para resolver. Nunca a ouvi queixar-se. Nunca a vi desistir. Foi com ela que aprendi que a força não precisa de barulho, que a coragem não pede licença, que as mulheres da nossa terra ajustam o peso ao corpo e seguem.

Trago a minha avó em mim desde então. Nos gestos repetidos, na forma de resistir, na capacidade de continuar mesmo quando o medo aparece. Quando penso desistir, lembro-me dela. Quando avanço sem certezas, lembro-me dela. É assim que a memória se transforma em herança.

As mulheres das Beiras são feitas dessa matéria antiga. Crescem com pouco, sonham sem alarde, resistem sem aplausos. Lutam mesmo quando ninguém espera que cheguem longe — sobretudo quando ninguém espera. Há nelas uma bravura discreta, uma confiança calma de que é possível continuar, mesmo quando tudo parece dizer o contrário.

Já cheguei longe. Mais longe do que aquela menina da serra alguma vez imaginou. Ultrapassei limites que pareciam definitivos, atravessei medos, quebrei silêncios, reinventei-me vezes sem conta. Mas não cheguei ao fim. Ainda não.

Há horizontes que continuam a chamar-me pelo nome. Há sonhos que ainda não ganharam forma, mas que já criaram raiz. Quero ir mais longe não por ambição vazia, nem para provar nada a ninguém, mas por lealdade a tudo o que fui para chegar aqui. Pela menina que aprendeu cedo a resistir. Pela mulher que se recusa a parar.

Os sonhos mudam com o tempo. Tornam-se mais conscientes, mais exigentes, mais pesados. Mas não perdem o fogo. Continuam a assustar-me — e isso diz-me que ainda importam. Continuo a escolher caminhos difíceis, não por teimosia, mas por fidelidade a mim, à minha história, à minha origem.

Carrego a determinação de quem caiu e se levantou sem testemunhas. A garra de quem aprendeu a resistir antes mesmo de aprender a sonhar. Carrego comigo a força das mulheres que vieram antes de mim — da minha avó Gracinda, da serra, da terra fria que molda carácter.

Enquanto houver fé, continuo a caminhar.
Enquanto houver sonho, permaneço de pé.

Sou da serra.
Sou das Beiras.
Sou granito.

E ainda tenho muito mundo para conquistar.

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