Férias??
Três dias de férias que não foram férias.
Foram um intervalo mal colocado numa frase demasiado longa.
A palavra descanso apareceu no calendário com a leveza de uma promessa, mas depressa ganhou o peso de uma obrigação falhada. Pelo meio, adoeci — como quem tenta forçar o corpo a dizer aquilo que a boca insiste em calar. Ainda assim, nada de deixar de cumprir. Há tarefas que não cedem, mesmo quando a saúde cede primeiro, como soldados disciplinados que continuam a marchar sobre um campo já vazio.
Trabalhei mais do que queria. Mais do que podia. Respondi a e-mails com a mesma febre com que se respondem a emergências. Fiz listas para não sentir o corpo. Cumpri prazos como quem cumpre penitências. Há em mim uma engrenagem antiga, talvez herdada, talvez treinada, que não sabe o verbo parar. Ou sabe, mas pronuncia-o como se fosse estrangeiro.
É estranho como nos convencemos de que o mundo depende do nosso cansaço. Como se, ao abrandar, traíssemos uma espécie de pacto invisível com a produtividade. E então seguimos, mesmo doentes, mesmo exaustos, mesmo com o corpo a pedir uma trégua que adiamos para “quando for possível”. Nunca é.
Há algo em mim incapaz de se dar por satisfeita. Como se o descanso fosse uma recompensa distante, reservada para um dia improvável em que tudo estará finalmente feito — mas tudo nunca está. O trabalho multiplica-se como espelhos frente a espelhos: infinito, repetido, sempre a devolver a mesma imagem de insuficiência.
E no entanto, no silêncio raro entre uma tarefa e outra, há um murmúrio: talvez parar não seja desistir. Talvez descansar seja uma forma de responsabilidade para com o próprio corpo, essa casa onde tudo acontece. Talvez haja coragem em fechar o computador antes que ele nos feche por dentro.
Três dias que não foram férias deixaram um cansaço que não cabe no calendário. Mas deixaram também uma pergunta insistente: quem sou eu quando não estou a cumprir?
Talvez a resposta comece precisamente aí — no intervalo que ainda não sei fazer, mas que o corpo, paciente e sábio, continua a tentar ensinar-me.
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