Ensinar também é aprender a escutar
Foi num intervalo curto, encostada à porta da sala, que percebi isto. Uma aluna ficou para trás. Não tinha uma pergunta concreta. Tinha apenas aquele silêncio pesado de quem quer dizer algo, mas ainda não sabe como.
Durante muito tempo achei que ensinar era saber explicar bem. Encontrar as palavras certas, os exemplos claros, a estrutura que fazia sentido. Achava que a escuta vinha depois — como um complemento, quase um gesto de simpatia.
Hoje sei que estava enganada.
Ensinar começa muito antes da matéria. Começa no momento em que percebemos que nem tudo o que chega à sala de aula vem em forma de perguntas. Há silêncios que pedem mais atenção do que qualquer resposta certa. Há olhares cansados, inquietos, ausentes. Há dias em que o conteúdo é apenas o pano de fundo de algo maior que precisa de ser escutado.
Aprendi que escutar não é interromper com soluções. Não é corrigir emoções. Não é apressar o tempo do outro. Escutar é ficar. É suportar o desconforto de não saber o que dizer. É aceitar que, às vezes, a nossa presença é mais importante do que a nossa opinião.
Há alunos que não dizem nada, mas dizem tudo. Outros falam muito para esconder o que não conseguem nomear. E há aqueles que, quando finalmente perguntam, não estão à procura de uma resposta — estão à procura de permissão para existir ali, naquele instante, sem máscaras.
Ensinar também é aprender a distinguir o ruído da dor. A perceber que a falta de atenção pode ser cansaço, que a indisciplina pode ser medo, que o desinteresse pode ser apenas uma forma de sobreviver. Nem sempre é. Mas às vezes é. E essas “às vezes” mudam tudo.
Não nos preparam para isto. Para o peso leve — mas constante — de carregar confidências que não nos pertencem. Para a responsabilidade de escutar sem invadir. De acolher sem prometer o que não podemos cumprir. De ser adulto sem ser distante.
Aprendi que escutar é um ato pedagógico profundo. Porque quando alguém se sente ouvido, aprende melhor. Confia mais. Arrisca mais. E, sobretudo, sente-se menos sozinho.
Ensinar, afinal, não é apenas transmitir conhecimento. É criar um espaço onde alguém possa pensar em voz alta, errar em segurança, perguntar sem medo. Um espaço onde a escuta não é exceção, mas fundamento.
Continuo a aprender conteúdos, métodos, estratégias. Mas o que mais tenho aprendido é isto:
que às vezes a aula mais importante acontece depois da aula.
E que escutar, de verdade, também ensina.