Ensaio sobre a estupidez

Observando o mundo à nossa volta, percebemos que a estupidez humana tem formas variadas e surpreendentes. Não se manifesta apenas em grandes erros ou decisões catastróficas, mas também nos gestos do dia a dia, nos conflitos banais que surgem por pura ausência de noção.

Na lavandaria da minha rua, ontem, vi essa estupidez em ação: gritos por um tambor de secar roupa, olhares fulminantes, quase à porrada para decidir quem lavava ou secava primeiro. E eu, parada, observava, sem conseguir acreditar como algo tão pequeno consegue transformar pessoas em animais, cegos para o outro, selvagens diante da própria urgência. Como se a pressa apagasse toda a lógica e toda a consciência de que somos apenas vizinhos, partilhando um espaço, uma cidade, um mundo que não nos pertence por inteiro.

Não é só a lavandaria. É o assalto silencioso ao papel higiénico, as compras exageradas de comida, como se a abundância individual valesse mais que a necessidade coletiva, como se não houvesse ninguém mais à espera, ninguém mais a precisar. Há quem transforme um secador de roupa numa questão de vida ou morte e, ainda assim, se esqueça de olhar para o lado, para o vizinho que está mesmo ali, à mão, apenas à espera de uma pergunta simples: “Precisas de ajuda?”.

E depois existem os outros: aqueles que gostam de se mostrar solidários, de partilhar histórias de ajuda a desconhecidos nas redes sociais, mas que se esquecem do vizinho do lado, do idoso que tropeçou, do adolescente ansioso que só precisava de uma palavra amiga. Solidários de fachada, generosos de longe, mas ausentes quando poderiam realmente fazer a diferença.

Vivemos tempos estranhos, confusos e egoístas, onde a prioridade é invisível e a noção parece ter partido para nunca mais voltar. E ainda assim, entre os gritos e as discussões, existe silêncio suficiente para perceber que podemos escolher o contrário: olhar para o lado, partilhar, esperar a vez, estender a mão a quem está mesmo ali. Perceber que as prioridades humanas não estão no secador de roupa nem no papel higiénico, mas naquilo que nos torna verdadeiramente humanos.

Talvez seja isso que ainda nos possa salvar: em dias de absurdo coletivo, quando a lógica parece abandonada e a indiferença reina, ainda podemos desacelerar, parar um momento, olhar ao redor e perceber que o outro importa. Podemos oferecer um gesto de cuidado sem esperar reconhecimento, perguntar se alguém precisa de apoio, dar atenção genuína. É nesse acto simples — numa palavra discreta, num silêncio partilhado, num olhar atento — que o egoísmo encontra resistência e a humanidade se faz sentir. Entre pequenas escolhas, estende-se a ponte que reconstrói o mundo, transformando o absurdo em sentido, recuperando o que parecia perdido e lembrando-nos, finalmente, do que nos torna verdadeiramente humanos.

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