E se eu não for capaz de viver sem ela?
“E se eu não for capaz de viver sem ela?”
“Como faço?”
Hoje, um adolescente ofereceu-me a sua dor ao telefone. Não veio embrulhada em teorias nem em frases bonitas. Veio crua, urgente, inteira. Veio com o medo próprio de quem ama pela primeira vez como se estivesse a aprender a respirar — e teme que, se o amor acabar, o ar acabe também.
Há idades em que o amor não é apenas amor.
É identidade.
É chão.
É a promessa silenciosa de que alguém nos vê por inteiro, mesmo quando ainda não sabemos quem somos.
Na adolescência, ama-se com o corpo todo e com o futuro inteiro. Ama-se como se cada despedida fosse definitiva, como se cada ausência fosse um abismo. Perder alguém, nessa idade, não é só perder um amor — é perder um espelho, um rumo, uma versão possível de nós mesmos.
E o medo não é apenas de ficar só.
É o medo de não saber existir depois.
Quando ele me perguntou “como faço?”, percebi que não queria uma solução. Queria alguém que ficasse ali, um pouco. Que não desvalorizasse a dor. Que não dissesse “isso passa” como quem fecha uma porta. Queria um adulto que não tivesse pressa de apagar o incêndio, mas coragem de sentar-se ao lado do fogo.
Enquanto o ouvia, lembrei-me de mim. Também eu já amei e não fui correspondida. Também eu já acreditei que aquele amor era insubstituível, que sem ele o mundo perderia cor, que a vida ficaria suspensa num antes e num depois impossível de atravessar. Houve um tempo em que o silêncio de quem não me escolheu doía mais do que qualquer palavra dita. Um tempo em que achei que amar sem retorno era falhar — e que o fracasso dizia algo definitivo sobre mim.
Não dizia.
Nunca disse.
Disse-lhe o que pude, a partir desse lugar vivido. Que ninguém aprende a viver sem amar, mas que todos aprendemos — devagar — a viver depois de perder. Que a dor não é um erro. É a prova de que houve verdade. Que amar não nos destrói; o que nos assusta é descobrir que somos mais frágeis do que imaginávamos. E mais fortes também, ainda que isso só se perceba depois.
Ser professora, às vezes, é isto: ser abrigo momentâneo. Um lugar seguro onde a pergunta pode existir sem ser julgada. Onde o choro não é fraqueza. Onde o silêncio também fala. Não temos sempre respostas, mas podemos oferecer presença. E, quando falamos a partir da nossa própria vulnerabilidade, criamos pontes invisíveis que dizem: “eu já estive aí”.
Há abraços que não se dão com os braços.
Dão-se com o tempo que se fica.
Com a escuta que não interrompe.
Com a confiança de dizer: “não estás sozinho”, mesmo à distância.
A adolescência é um território onde tudo é grande demais: o amor, a angústia, o medo de perder, o medo de não ser suficiente. Mas é também onde se aprende, pela primeira vez, que o coração parte — e continua a bater. Eu aprendi isso. Ele está a aprender agora.
Talvez viver seja isso: aprender que não somos feitos para viver sem amor, mas que somos capazes de viver depois dele. E que, enquanto aprendemos, alguém pode caminhar connosco um pouco. Nem à frente, nem atrás. Ao lado.
Hoje, tentei ser esse lado.
PB