Domingo

Há domingos que não pedem nada.
Nem promessas, nem resoluções, nem grandes declarações.
Pedem apenas presença.

Hoje fui ver o mar à Ericeira como quem regressa a uma casa antiga. O sol brilhava sem excesso, com aquela delicadeza luminosa dos dias de inverno e que parece pousar nas coisas em vez de as invadir. O Atlântico respirava largo, paciente, como se tivesse todo o tempo do mundo — e talvez tenha.

Caminhámos devagar. Não havia urgência. A vida, por uma vez, decidiu correr sem pressa ao nosso lado. O vento trazia sal e memória. E naquele instante percebi que a felicidade, afinal, não é um acontecimento extraordinário. É uma soma de pequenas coincidências: a mão certa na nossa mão, um riso familiar atrás de nós, o som do mar a repetir que tudo está exatamente onde deve estar.

Pelo meio, houve doçura — literal e simbólica. Comi ouriços, daqueles doces típicos que parecem ter sido inventados para nos lembrar que também o mar pode caber numa sobremesa. E comi gelado, como se o inverno, ali, não tivesse autoridade suficiente para proibir pequenos prazeres. Há coisas que não precisam de lógica: precisam apenas de acontecer.

Celebrámos o amor com atraso. Um São Valentim fora do dia certo do calendário, mas sempre a tempo — porque o amor não responde a datas fixas, responde à disponibilidade do coração. Há qualquer coisa de bonito em festejar fora da moldura oficial, como se disséssemos ao mundo: não precisamos que nos recordem de amar.

O amor, quando amadurece, deixa de ser espetáculo e torna-se paisagem. É o silêncio confortável entre duas pessoas que já atravessaram tempestades. É o olhar cúmplice que dispensa legendas. É saber que a família não é apenas quem partilha o sangue, mas quem partilha o tempo — e o tempo é a única moeda que verdadeiramente importa.

Sentámo-nos nas falésias como se estivéssemos à beira do infinito. As ondas quebravam com a regularidade de um coração tranquilo. Pensei que o mar é um grande contador de histórias: fala de partidas e regressos, de distâncias e reencontros. Talvez por isso nos acalme — porque nos lembra que tudo vai e volta, que tudo muda e permanece ao mesmo tempo.

Havia crianças a correr, casais a fotografar o sol, idosos a observar o horizonte como quem lê um livro antigo. E nós ali, no meio de tudo, sem precisar de mais nada. A paz não era ausência de ruído; era a harmonia possível dentro dele.

O domingo tem essa textura rara dos dias bons: não precisa ser extraordinário para ser inesquecível. Basta existir. Basta aquele céu aberto, aquele mar vasto, aquela certeza mansa de pertença.

Na Ericeira, o amor e a vida parecem-me sempre mais simples. Talvez porque o mar nos ensine proporção. Somos pequenos perante a grandiosidade do Atlântico, é verdade, mas juntos somos casa e porto seguro um do outro.

Voltámos ao final da tarde com os sapatos cheios de areia, o cheiro a maresia no cabelo e o coração leve. Não tirámos fotografias suficientes para provar o dia, mas trouxémos algo melhor: a sensação de que a vida, quando abranda, revela a sua forma mais verdadeira.

E então compreendi que o amor não vive de datas certas, mas de presenças certas. Não se mede pelo calendário, mas pela capacidade de permanecer.

Hoje, ao fim da tarde, com o mar a escurecer devagar e o sol a despedir-se sem pressa, soube que não precisávamos de mais nada e que estávamos exatamente onde a vida nos queria.

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