🪞 Autoestima não é acordar bonita — é acordar em paz
Durante muito tempo disseram-nos que autoestima era gostar do que vemos ao espelho. Como se tudo dependesse da luz certa, do ângulo certo, do cabelo obediente, da pele sem marcas, da versão “apresentável” de nós mesmas. Como se a confiança fosse uma consequência direta de um reflexo simpático numa manhã generosa.
Mas a verdade é outra.
Autoestima não é acordar bonita. É acordar em paz.É abrir os olhos e não começar o dia em guerra com o próprio corpo. É levantar-se sem uma lista mental de defeitos. É vestir-se sem que cada escolha seja uma tentativa de esconder algo. É existir sem pedir desculpa pelo espaço que se ocupa.
A paz não significa que vamos amar cada detalhe todos os dias. Significa apenas que deixamos de nos tratar como inimigas. Que trocamos a crÃtica constante por alguma gentileza. Que entendemos que o espelho não é juiz — é apenas superfÃcie.
Há dias em que nos sentimos bonitas. E isso é bom. Mas há dias em que estamos cansadas, inchadas, desalinhadas, vulneráveis. E nesses dias, a autoestima verdadeira não desaparece — ela sussurra: “Tu continuas a ser suficiente.”
Autoestima é perceber que o valor não oscila com o número da balança, com o tamanho da roupa, com os elogios recebidos ou com os silêncios alheios. É saber que a nossa dignidade não depende de aprovação externa. Que não precisamos estar impecáveis para sermos respeitadas. Que não precisamos ser perfeitas para sermos amadas.
É também aprender a reconhecer as próprias forças sem diminuir as fragilidades. É aceitar que há inseguranças — mas que elas não comandam a narrativa. É falhar sem concluir que se é um fracasso. É errar sem transformar o erro em identidade.
Autoestima madura não grita. Não precisa provar nada. Ela é silenciosa e firme. É a capacidade de sair de ambientes que ferem. É a coragem de impor limites. É a serenidade de dizer “não”. É a liberdade de dizer “sim” sem culpa.
Não se constrói apenas com afirmações repetidas ao espelho. Constrói-se com escolhas diárias: descansar quando o corpo pede, afastar-se de quem desrespeita, falar consigo mesma com mais cuidado do que fala com as próprias crÃticas.
Acordar bonita pode ser agradável. Mas acordar em paz é transformador.
Porque quando há paz interior, a comparação perde força. A pressão externa diminui. A necessidade constante de validação enfraquece. E começamos a viver com mais leveza — não porque tudo esteja perfeito, mas porque já não estamos em conflito permanente connosco.
Talvez autoestima seja isso: um acordo interno. Um compromisso silencioso de não se abandonar. Uma decisão repetida de ficar do próprio lado.
E essa paz, quando chega, ilumina mais do que qualquer filtro.
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