Aquilo que demorei anos a aprender
Demorei anos a aprender isto: nem todas as pessoas sabem escutar sem julgar.
Durante muito tempo achei que escutar era um gesto simples, quase automático. Que bastava estar presente, ouvir as palavras, responder com empatia. Só mais tarde percebi que escutar de verdade exige uma espécie de ética silenciosa: a capacidade de não invadir, de não corrigir a emoção do outro, de não transformar a fragilidade alheia em matéria de conversa ou de opinião.
Foram os meus alunos que me ensinaram isso. Os que ainda não aprenderam a interromper com certezas. Os que não sentem a urgência de explicar o mundo ao outro enquanto ele ainda está a tentar entender o seu. Escutam como quem guarda algo precioso — e ficam. Não pedem justificações. Não tentam traduzir o que digo para versões mais aceitáveis. Escutam-me apenas de coração aberto e genuíno.
Há uma honestidade muito rara nesse gesto. Quando alguém escuta sem preparar uma resposta. Quando não pergunta “porquê?” como quem exige defesa, mas aceita o que é dito como suficiente. Com eles, aprendi que a escuta não precisa de ser brilhante para ser verdadeira. Precisa apenas de ser leal.
Aprendi também que há uma forma muito pura de lealdade: estar presente no desabafo do outro sem o transformar em conversa alheia. Guardar o que é confiado. Não usar a intimidade como prova de proximidade nem como moeda de poder. E que essa lealdade, quando é genuína, pede reciprocidade. Escuto-os como me escutam. Com cuidado. Com respeito. Com silêncio quando é preciso.
Os adultos… alguns ensinaram-me o contrário. Ensinaram-me que a amizade pode ser condicional. Que a escuta pode esconder julgamento. Que há quem ouça apenas para responder melhor, para se posicionar, para se sentir certo. Houve confidências que voltaram disfarçadas de conselho. Palavras minhas que regressaram com outro tom, noutra boca, noutro lugar.
E isso dói. Não de forma estridente, mas lenta. Ensina-nos a medir palavras quando falamos, a recolher partes de nós, a falar menos do que sentimos. Ensina-nos, às vezes, a manter a distância e a dar menos de nós aos outros. distância.
Demorei anos a aprender a escolher melhor a quem entrego as minhas palavras. A perceber que nem toda a escuta é segura, mesmo quando parece atenta. Hoje sei que amizade não é quantidade, nem frequência, nem história partilhada. Amizade é cuidado. É saber que aquilo que digo ficará onde o deixei. É poder falar sem medo de ser reduzida, corrigida ou traduzida.
Demorei anos a aprender que escutar é também um gesto de amor.
E que nem todos sabem amar assim.