Aprender a ser casa

Sou mulher e aprendi cedo a não descansar dentro de mim. A exigir-me clareza quando estava confusa, força quando só queria colo, maturidade quando ainda doía. Como se falhar fosse um luxo que nunca me pertenceu. Como se existir tivesse de vir sempre acompanhado de desempenho — e como se esse desempenho tivesse sempre de ser irrepreensível.

Cresci a aplaudir-me pouco e a cobrar-me muito. A transformar cansaço em culpa, silêncio em fraqueza, pausa em preguiça. A ser sempre exigente demais comigo. Na minha cabeça eu tinha que ser: a professora mais atenta e competente, a mãe sempre presente, a esposa dedicada, a filha mais disponível. Em cada papel, a mesma exigência silenciosa de perfeição. Sou perita em sobreviver — mas ainda aprendiz em permitir-me. E às vezes pergunto-me quando foi que comecei a tratar-me como projeto em constante correção, em vez de casa habitável.

Ser mulher, para mim, tem sido isto: resistir mesmo quando o corpo pede abrigo e tentar ser sempre a melhor em todos os lugares como se falhar num deles fosse falhar em mim inteira. E mesmo que teoricamente eu saiba que não preciso ser excecional todos os dias — ainda assim exijo de mim mais do que seria capaz de exigir a alguém que amo, porque, claro, comigo a minha tolerância é sempre menor.

Falam-me de autocuidado como quem oferece um manual, mas ninguém me ensina como se desarma uma vida inteira de dureza, nem como se deixa de confundir amor com entrega total. Talvez um dia eu aprenda a cuidar de mim. Mas hoje ainda não. Hoje, ainda me exijo mais do que me escuto.

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