💔 Amizades que acabam: fim do mundo ou começo de crescimento?

Há despedidas que não têm cerimónia. Não há discursos preparados, nem portas a bater, nem uma última conversa que explique tudo com clareza. Às vezes há apenas um afastamento lento: mensagens que deixam de ser diárias, conversas que perdem profundidade, risos que passam a ser educados. E um dia percebemos, quase sem saber exatamente quando aconteceu, que já não é igual. E isso dói.

Dói porque, seja em que idade for, as amizades não são pequenas. São intensas. São abrigo. São identidade. As amigas não são apenas pessoas com quem se passa tempo; são testemunhas daquilo que estamos a descobrir sobre nós mesmas. Sabem de quem gostamos, do que temos medo, das inseguranças que escondemos atrás de gargalhadas. Sabem versões nossas que, muitas vezes, nem nós conhecemos.

Quando uma amizade muda ou termina, não parece apenas uma perda externa. Parece um abalo interno. Surge a pergunta silenciosa: “Se já não somos ‘nós’, quem sou eu agora?” E essa pergunta é mais profunda do que parece.

Vou dizer-vos uma coisa com honestidade: essa sensação não pertence só à adolescência. Eu também já perdi amizades que julgava eternas. Na altura, pareceu fim do mundo. Hoje, olhando para trás, percebo que eram transições. Algumas pessoas ficaram na minha vida. Outras tornaram-se memória. E algumas regressaram anos depois, quando ambas já éramos diferentes.

Há amizades que são para sempre. Mas há amizades que são para uma fase. Isso não significa que foram falsas, superficiais ou inúteis. Significa apenas que cumpriram o que tinham a cumprir naquele momento da nossa história. Algumas pessoas aparecem para nos ensinar coragem. Outras para nos ensinar limites. Outras ainda para nos mostrar o que queremos — e o que não queremos — aceitar numa relação.

Quase ninguém fala do luto das amizades. Fala-se muito de corações partidos em romances, mas pouco se fala do coração partido entre amigas. E dói de forma diferente. Não é um drama cinematográfico; é uma tristeza silenciosa. É olhar para alguém que já foi “casa” e sentir distância.

E é normal sentir tristeza. É normal sentir raiva, saudade, confusão. Nada disso vos torna fracas ou imaturas. Torna-vos humanas.

Nem toda amizade que acaba é um fracasso. Às vezes é crescimento. Crescer significa mudar. E mudar significa, por vezes, deixar para trás versões antigas de nós mesmas. Algumas relações estavam profundamente ligadas a quem éramos naquela altura. Quando mudamos, é natural que certas ligações também se transformem.

Talvez a pergunta mais importante não seja “Porque é que isto acabou?”, mas “O que é que isto me ensinou?”. Aprendeste a comunicar melhor? Aprendeste a impor limites? Aprendeste que mereces mais respeito? Ou talvez aprendeste que também erras e que as relações exigem responsabilidade dos dois lados?

Nenhuma amizade verdadeira é tempo perdido, mesmo quando termina. Tudo o que viveste foi real. As gargalhadas foram reais. As confidências foram reais. O apoio foi real. E isso não desaparece só porque o presente mudou.

Se estás a passar por um afastamento, quero que saibas que não estás dramática, não estás exagerada e não estás sozinha. Perder uma amizade pode parecer o fim do mundo aos 17 anos. Mas muitas vezes é o começo de te aproximares mais de quem realmente estás a tornar-te.

O mundo não acaba quando uma amizade termina. Às vezes, ele reorganiza-se. Às vezes, abre espaço para novas pessoas que combinam mais com a tua versão atual. E às vezes ensina-te a seres a tua própria companhia, o que é uma aprendizagem silenciosa e poderosa.

Algumas amizades não acabam; apenas mudam de forma. Outras terminam para que possas crescer. E crescer nunca é confortável, mas é necessário.

Se alguma vez sentires que o chão tremeu porque alguém se afastou, lembra-te disto: tu continuas inteira. Continuas em construção. Continuas capaz de criar novas ligações, mais conscientes, mais alinhadas com quem estás a tornar-te.

E isso não é o fim do mundo. Pode muito bem ser o começo de uma versão mais forte, mais clara e mais tua.

PB

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