A minha forma imperfeita de estar no mundo

“Tu sentes tudo muito.”

Ouvi esta frase primeiro da minha mãe. Repetida ao longo dos anos, quase sempre com preocupação disfarçada de correção. Como se sentir intensamente fosse um risco. Como se fosse preciso aprender a conter, a moderar, a não deixar transbordar. Cresci a acreditar que havia em mim um excesso — algo que precisava de ser ajustado para caber melhor no mundo e, talvez, para facilitar a vida de quem me rodeava.

Durante muito tempo tentei aprender a sentir menos. A reagir menos. A guardar mais para mim. Achei que isso era maturidade. Só mais tarde percebi que estava a confundir crescimento com silenciamento.

Hoje ouço aquela frase de outra forma. Não como crítica, mas como constatação. Não uma sentença, apenas um facto.

A minha forma de estar no mundo é imperfeita porque é intensa. Porque sinto antes de explicar. Porque confio antes de desconfiar — ainda que hoje o faça com mais cuidado. Porque escuto com o corpo inteiro, mesmo quando isso cansa. Porque me afasto quando a lealdade se quebra. Porque não sei fingir indiferença onde houve verdade.

Essa intensidade continua a causar estranheza. Há adultos que me olham com condescendência, como se eu fosse demasiado transparente para este mundo, como se sentir assim fosse sinal de ingenuidade. Outros olham com desconfiança. A sinceridade, quando não vem disfarçada, incomoda. Há quem prefira camadas, filtros, palavras a meio. Dizer exatamente o que se pensa, com cuidado mas sem cálculo, é visto como imprudência.

Também aprendi — à custa de algumas quedas — que nem toda a proximidade é segura. Já me desiludi com pessoas próximas, inesperadas, daquelas que acreditamos que ficam. Já fui abandonada em momentos em que não esperava. E essas ausências ensinaram-me algo essencial: demoro a dar-me aos outros. Não por frieza, mas por memória. Não por medo, mas por lucidez.

Hoje escolho com calma a quem me dou. Em quem confio. Quem deixo entrar na minha vida. Aprendi que a entrega apressada cobra um preço alto, e que proteger-se também é uma forma de amor-próprio.

E foi, talvez de forma surpreendente, na relação com os meus alunos que reencontrei uma verdade simples: há pessoas com quem não preciso fingir, nem medir palavras, nem esconder fragilidades. Com eles sei com o que posso contar. Sei o que posso confiar. Sei que ali não há jogos, nem mentiras, nem julgamentos.

Com eles aprendi que não há idade para a lealdade — há caráter. Que a honestidade dita com cuidado não fere, esclarece. Que escutar sem querer corrigir é uma forma profunda de respeito. E que a amizade, quando é verdadeira, nasce devagar e sustenta-se na confiança.

Sou imperfeita porque me importo. Porque continuo a acreditar na escuta como lugar de encontro. Porque ofereço cuidado sabendo que nem sempre volta da mesma forma. Porque prefiro o risco da verdade ao conforto da indiferença.

Talvez a minha forma de estar no mundo não seja fácil.
Nem prática.
Nem sempre compreendida. Mas é a minha — e já não vou mudá-la.

Durante anos achei que precisava de me diminuir para caber. Hoje sei que não nasci para ocupar menos espaço do que aquele que o meu coração exige. Não sou excesso — sou presença. Não sou exagero — sou verdade em estado inteiro.

Sinto muito, sim. E é precisamente isso que me permite amar muito, cuidar muito, ensinar muito, permanecer muito. A intensidade que já tentei calar é a mesma que me sustenta, que me orienta, que me impede de viver pela metade.

Se o mundo às vezes prefere versões diluídas, paciência. Eu escolho continuar inteira. Com tudo o que isso traz: a vulnerabilidade, o cansaço, a lucidez, a coragem.

Porque sentir tudo muito não é uma fraqueza.
É um compromisso com o que é real.
É recusar a superfície e viver sem anestesia.

E hoje, quando ouço novamente — “Tu sentes tudo muito intensamente.” — sorrio.
Sinto sim. E ainda bem.

PB

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