Vivemos conectados, mas desalinhados

Nunca estivemos tão ligados e tão desencontrados ao mesmo tempo. Comunicamos muito, compreendemos apenas um pouco. As mensagens circulam depressa, as palavras chegam antes do pensamento, e a resposta antecede a escuta. Falamos para sermos ouvidos, mas ouvimos cada vez menos.

A conexão tornou-se permanente, quase obrigatória. Estamos sempre acessíveis, sempre disponíveis, sempre a um toque de distância. Mas a proximidade digital não garante encontro. Podemos falar durante horas e continuaremos afastados por muito tempo. Podemos trocar mensagens o dia inteiro e não nos concentrarmos em nada essencial.

O alinhamento exige escuta. E ouvir é mais do que ouvir sons ou ler palavras. Escutar é demorar-se. É suspender a pressa, adiar o juízo, aceitar o silêncio entre uma frase e outra. A escuta exige pausa. E a pausa tornou-se suspeita, como se parar fosse sinónimo de desinteresse, como se o silêncio fosse uma quebra de ligação.

Vivemos num tempo em que responder depressa vale mais do que compreender bem. A velocidade da comunicação criou a ilusão de proximidade, mas roubou profundidade ao encontro. Quanto mais rápido conversamos, menos tempo damos às palavras para assentarem. E palavras que não assentam, não criam entendimento.

Há um desalinhamento subtil que se instala quando tudo acontece sem pausa. Entre o que dizemos e o que o outro ouve. Entre o que mostramos e o que somos. Entre o que sabemos e o que sentimos. Estamos constantemente ligados, mas deslocados de nós próprios.

Talvez seja preciso desligar um pouco. Não como excluído do mundo, mas como gesto de cuidado. Desligar para ouvir melhor. Desligar para sentir de novo o peso das palavras. Desligar para voltar a coincidir com o conhecimento e com o pensamento.  Porque comunicar não é estar sempre conectado... é estar presente.

PB

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