Sobre o amor

 O amor é uma forma de atenção demorada, o gesto de quem decide ler o outro não como um resumo apressado, mas como um livro infinito, cheio de notas de rodapé e páginas dobradas nos cantos. Amamos não quando encontramos a perfeição, mas quando o nosso silêncio se sente finalmente confortável ao encostar-se no silêncio de alguém, numa geometria que se inventa enquanto se caminha. 

Há no afeto uma humildade necessária, um exercício de descer do pedestal para ser chão, para ser a mão que lava o rosto da tristeza alheia quando o mundo parece pesado demais para os ombros. Amar é construir uma espécie de despensa de afetos, onde guardamos os dias pequenos e as alegrias miúdas para que, quando o inverno chegar, tenhamos como aquecer a alma, sabendo que a vida não acontece nos grandes palcos, mas na delicadeza de quem nos prepara o café ou nos olha como se fôssemos a primeira manhã do mundo.

E talvez amar seja também aceitar que o outro nos escape, como escapam as cidades que sonhámos e nunca visitámos. Há pessoas que nos habitam como uma música distante: não sabemos de onde vem, mas muda a maneira como atravessamos a rua. O amor não promete permanência; oferece presença. E isso basta. Porque quem ama aprende a ficar mesmo quando tudo ensina a ir embora, aprende a cuidar do intervalo, do meio do caminho, do que não se resolve.

Amar é uma forma de resistência discreta. Um ato quase político de escolher a delicadeza num mundo que grita. É dizer “fica” sem prender, é abrir espaço dentro de si para que o outro possa pousar o cansaço, mesmo que seja só por um instante. Há amores que não salvam, mas acompanham — e nisso reside a sua grandeza. Caminham ao lado, como quem segura a lanterna baixa para não ferir os olhos da noite.

No fundo, amar é aceitar a própria incompletude e, ainda assim, oferecer o que se tem: um corpo falível, um coração remendado e uma vontade sincera de cuidar. 


PB

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