Sobre a (Ir)responsabilidade Invisível de Quem Ensina
Há uma forma de incompetência no ensino que não nasce da falta de títulos, mas da ausência de consciência. É uma incompetência que se manifesta no desleixo, na reprodução acrítica, no cumprimento mínimo das obrigações, como se ensinar fosse apenas ocupar tempo e não assumir responsabilidade sobre vidas em formação .
Quando falta rigor, não é apenas o conhecimento que se empobrece; é a confiança do aluno que se fragiliza. O rigor não é dureza nem autoritarismo — é respeito. Respeito pelo saber, pelo tempo do aluno e pela promessa implícita que existe em cada ato educativo: a de que quem ensina está ali para abrir caminhos, não para os fechar.
O descaso com que, por vezes, se trata o aluno é uma forma silenciosa de violência. Ignorar dúvidas, desvalorizar esforços, dar a matéria a despachar, reduzir o estudante a um número, a uma média ou a um comportamento inconveniente é esquecer que, por trás de cada aluno, existe uma história, uma esperança e um futuro ainda por escrever. Não há neutralidade nesse esquecimento. Quem educa sem cuidado contribui, ainda que involuntariamente, para o empobrecimento do possível.
Esquecem-se, demasiadas vezes, de que têm os sonhos dos alunos nas mãos . E sonhos não são abstrações ingénuas: são projetos de vida frágeis, dependentes de reconhecimento, orientação e exigência justa. Um comentário negligente, uma avaliação injusta, uma resistência pedagógica pode marcar de forma trágica quem ainda está a aprender a acreditar em si.
Falo também como mãe. Sei o que significa acompanhar de perto o percurso dos filhos, lutar ao lado deles quando o sistema falha, quando o rigor é substituído pela indiferença e quando a autoridade se transforma em arbitrariedade. Sei o que custa proteger sonhos que não são nossos, mas que sentimos como extensão da nossa própria responsabilidade ética. Há batalhas silenciosas que muitas famílias travam para que a escola não se torne um lugar de desilusão precoce.
Ensinar é um ato moral antes de ser técnico. Não basta dominar conteúdos, é preciso honrar o lugar que se ocupa. Quem entra numa sala de aula aceita, queira ou não, uma responsabilidade que ultrapassa o programa: a de não roubar futuros por negligência, por cansaço ou por comodismo.
A educação não exige perfeição, mas exige consciência . Exige rigor, presença e compromisso. Porque o que está no jogo não é apenas o sucesso escolar, mas a dignidade de quem aprende e o direito de sonhar sem que alguém, por descuido ou incompetência, lhe retire essa possibilidade.
PB
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