Sábado
O sábado começou cedo, como começam os dias que ainda não sabem bem ao que vêm. A luz entrou pela janela com cautela, como se também ela estivesse a testar se já era seguro ficar. Não houve pressa. Houve antes uma espécie de atenção miúda, um olhar mais demorado sobre as coisas simples, como quem reaprende o território depois de um abalo.
A minha sala abriu as portas e, com elas, começaram a chegar os alunos. Alguns vinham para a aula, mochila às costas, caderno na mão, tentando recuperar a normalidade de sentar, ouvir, responder. Outros vieram só ver. Passaram pela porta, olharam para dentro, ficaram uns minutos, sorriram, perguntaram como estava tudo. Havia também os que vinham beber café, ligar o telemóvel, aproveitar uma tomada livre como quem aproveita uma tábua em mar revolto.
Durante essas horas, a minha sala foi outra coisa. Não apenas um lugar de aprendizagem, mas um ponto de reencontro, um espaço de refúgio. Falou-se pouco do que tinha acontecido e muito do que ainda estava a acontecer. As frases eram simples: “já tens luz?”, “conseguiste falar com a família?”, “em tua casa está tudo bem?”. Perguntas básicas, quase primitivas, como se o mundo tivesse voltado ao essencial.
A meio da manhã, chegou uma amiga. Veio de longe, atravessando estradas e circunstâncias, e trouxe com ela um pedaço de um tempo antigo, desses que não precisam de explicação. Abraçámo-nos sem dizer muito. Às vezes, a amizade é isso: saber que o outro existe, mesmo quando a vida se encarrega de nos afastar. Tinha saudades dela. Uma saudade calma, mas funda.
Mais tarde, nas compras, encontrei ex-alunas. Reconheceram-me antes de eu as reconhecer a elas. O “stora!” saiu espontâneo, carregado de surpresa e alegria. Falámos pouco, mas bastou. São estes encontros breves que nos lembram que o tempo passa, mas não apaga tudo. Que algumas presenças ficam, mesmo quando mudam de lugar.
O resto do dia estendeu-se devagar. Houve tempo para ler, para corrigir trabalhos de casa, para cumprir pequenas tarefas adiadas. Não como obrigação, mas como quem arruma o que pode enquanto aceita que há muito que ainda não está resolvido. Cumprir objetivos mínimos, gerir expectativas, perceber que, por agora, isso chega.
Este sábado devolveu-nos algo precioso: a sensação de rotina. A vida a acontecer nos seus gestos mais banais. E percebemos, talvez tarde demais, como isso é um privilégio.
Porque à volta há quem não tenha telhado firme, quem continue sem água, sem luz, sem comunicações. Há notícias de pessoas que pedem ajuda e encontram apenas o eco das próprias vozes. Há apoios que tardam, caminhos que não chegam a todo o lado, vidas suspensas à espera de uma resposta que não tem data.
E, enquanto isso, há também ruído. Discussões pequenas, prioridades desalinhadas, como se a urgência fosse igual para todos. Como se a fragilidade humana não tivesse acabado de se revelar na sua forma mais nua: basta faltar o básico para nos sentirmos perdidos.
A vida vai voltando. Não de uma vez, não para todos, não da mesma forma. Vai voltando nas entrelinhas: num café partilhado, num telefone carregado, num reencontro inesperado, numa aula que acontece, mesmo quando tudo ainda treme.
Este foi um sábado assim. Um sábado de regresso lento, de passos pequenos, de consciência nova. E, por agora, isso foi suficiente.