Regressar ... mas devagar

Há regressos que se fazem com o corpo e outros que se fazem apenas por obrigação. O meu é um pouco dos dois. Regressar ao trabalho é voltar a vestir uma versão funcional de mim mesma, essa que sabe horários, programas e respostas possíveis. Mas por dentro ainda levo restos do tempo lento, migalhas de dias longos, uma certa indisciplina do coração que não se adapta logo às regras. Os alunos chegam como se nunca tivessem ido, e eu sorrio com essa ilusão confortável de continuidade, fingindo que não estivemos todos, de alguma forma, suspensos.

Alguns olhares perguntam-me coisas que não cabem no currículo: “O que mudou enquanto não estávamos aqui?” Outros trazem apenas a pressa do presente, como se uma semana fosse um intervalo irrelevante. Eu reconheço-os a todos, mesmo os que cresceram um pouco mais do que o esperado, mesmo os que parecem ter deixado algo para trás. Há sempre uma estranheza doce nesse reencontro, como se nos estivéssemos a reapresentar a pessoas que já conhecíamos bem.

Em casa, no entanto, o regresso é outro. Volto ao silêncio ainda quente, ao eco recente dos passos dos meus filhos. As cadeiras guardam a forma dos seus corpos, a mesa conserva conversas inacabadas. Sinto saudades de algo que acabou há minutos, e isso parece-me injusto, quase exagerado, mas inevitável. Quinze dias são suficientes para criar uma pequena eternidade doméstica, e agora custa aceitar que a eternidade tenha prazo.

Aprendo, então, que regressar não é voltar ao mesmo lugar. É aceitar que tudo regressa diferente: nós, os outros, a casa, o trabalho. A vontade de voltar existe porque há sentido, há afeto, há histórias por continuar. A preguiça existe porque sabemos que cada regresso implica uma perda — do descanso, do tempo solto, da presença plena. Talvez seja por isso que regressamos devagar, com o coração ligeiramente atrasado, à espera que a vida tenha a delicadeza de nos acompanhar.


PB


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