Quando o ano deixa de ser novo
Hoje o meu dia amanheceu cedo. O céu ainda tinha o azul apagado do inverno, e eu já estava na minha sala a ensinar matemática às 8h, rindo-me das perguntas inesperadas, surpreendida com a sagacidade do meu aluno. O ano já não é assim tão novo — já vamos no dia 6, hoje é Dia de Reis — e, devagar, tiramos a árvore e guardamos o Natal. Cada enfeite voltou à caixa com um suspiro, como se carregasse em si a memória de todas as festas passadas e dos sorrisos que ainda vão surgir.
Alguns alunos que eu ainda não tinha reencontrado ajudaram-me a desmontar a árvore. “Não podíamos deixá-la mais um bocadinho montada professora?” perguntaram, com aquela ingenuidade doce que quase me fez ceder. Mas o tempo não espera. É preciso dar espaço ao novo — novos planos, novas etapas, outros desafios. A árvore volta à caixa, e a vida continua, silenciosa e firme, preparando-se para o que virá.
Um dia, sem aviso, o ano deixa de ser novo. Já não contamos semanas, já não repetimos “este ano”. O tempo instala-se nos cantos da casa e da rotina. E isso não é perda, é maturidade. É perceber que o novo não está no calendário, mas nos gestos que se repetem, nos sorrisos que permanecem, na atenção que damos ao comum.
Quando o ano deixa de ser novo, ele torna-se nosso. Com falhas, ajustes, desvios. Já não esperamos milagres. Esperamos coerência. Presença. Um pouco de verdade nos dias comuns. Sei que custa largar estes festejos de Natal, mas há outras festas novas que virão: aniversários de alunos, o Dia dos Namorados, o Carnaval e a primavera que se anuncia lentamente, e onde cada flor é preparada com tempo, com as horas de luz a aumentar e os dias a crescer como quem se espreguiça após um sono longo. Dois meses inteiros de inverno ainda nos esperam, mas cada dia, devagar, prepara a terra, prepara a vida, prepara-nos para renascer.
E talvez seja aí que tudo começa, outra vez. Entre caixas arrumadas, risos e folhas que caem das árvores, entre cálculos e histórias, percebemos que a beleza não está só no novo que chega, mas na atenção que damos ao momento que nos cabe. Entre o velho e o que ainda não veio, aprendemos a celebrar a continuidade da vida, a subtileza do tempo que passa e a delicadeza dos dias comuns.
PB
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