Quando a Infância nos marca e define
Não tive uma infância fácil. Cada obstáculo, cada ausência, cada noite longa deixou marcas que pareciam querer moldar-me à força. Talvez por isso eu seja beirã, filha da serra, feita desse granito antigo que aprende cedo a resistir. Cresci como crescem as pedras das Beiras: expostas ao vento, ao frio, à solidão das alturas. Mas, em vez de me quebrar, tudo isso ensinou-me a erguer uma fortaleza dentro de mim. Uma rocha firme, densa, resistente, que aprendeu a suportar tempestades, a enfrentar o mundo sem vacilar, mesmo quando o vento soprava contra, mesmo quando a neve parecia querer silenciar tudo à sua volta.
Dentro dessa rocha, porém, pulsa algo inesperado. Porque até o granito da serra guarda fendas onde a água corre mansa. Dentro de mim vive um coração mole, meigo, doce, que se recusa a endurecer por completo. Um coração como a neve quando começa a derreter: frio por fora, mas capaz de alimentar a terra. Esse coração é fruto de mãos que me acolheram, braços que me envolveram e silêncios que me protegeram. Devo aos meus avós maternos esse colo sereno, essa paciência que só quem conhece o ritmo da serra possui, essa certeza de que a ternura não enfraquece. Eles ensinaram-me que se pode ser firme como a pedra e, ainda assim, suave como a neve que cai sem fazer ruído; que se pode resistir sem perder a doçura; que a verdadeira força é saber permanecer.
Ao meu pai devo a força que me move, a garra de quem sobe encostas íngremes sem garantia de chegada, a coragem de enfrentar o que assusta e a resistência de quem aprendeu que o caminho se faz mesmo quando o corpo cansa. Com ele aprendi que a vida é como a serra: exige fôlego, persistência e respeito. Ensinou-me a olhar os outros com esperança, a ver potencial onde há desgaste, a acreditar que mesmo as pedras mais duras podem aquecer ao sol certo.
Sou, portanto, esta mistura típica das Beiras: firme como o granito, mas moldada pelo tempo; resistente como quem aguenta invernos longos, mas sensível ao primeiro sinal de primavera. Sou exigente comigo mesma, rigorosa nas metas, séria nas escolhas, dura quando necessário — como a terra que se fecha para se proteger. Mas sou também capaz de ternura funda, de empatia silenciosa, de abraços demorados e palavras suaves, como a bruma que envolve a serra ao amanhecer.
Aprendi que a verdadeira força não está em se tornar insensível. Está em ser rocha e, ainda assim, permitir que a água escorra. Em resistir ao frio e deixar que o calor chegue. Em suportar tempestades e aceitar que a suavidade também constrói. A serra ensina isso: a ser firme, mas não estéril, num equilíbrio delicado entre dureza e acolhimento, entre silêncio e vida.
Sou, portanto, e ao mesmo tempo, uma espécie de rocha de coração mole: beirã, filha da serra, feita de granito e de neve, de resistência e suavidade. Carrego histórias de luta e de abraços, de invernos longos e primaveras teimosas. É essa mistura que me define, que aprendi a aceitar e que me permite avançar, sempre em frente, com os pés firmes na terra e o coração aberto ao que ainda pode florescer.
PB
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