O silêncio deixou de ser neutro

 O silêncio deixou de ser neutro. Quem se cala parece esconder alguma coisa. Parece distante, desligado, ausente. Num mundo que exige resposta imediata, o silêncio é interpretado como uma falha, como um erro de sistema, como se a ausência de palavras fosse um defeito a corrigir.

Falamos para provar que existimos. Preenchemos cada espaço com palavras, sons, mensagens, notificações, como se o vazio fosse perigoso. Como se, ao parar de falar, corressemos o risco de desaparecer. Mas o silêncio é muitas vezes um intervalo, um espaço entre duas ideias, o tempo necessário para que uma emoção encontre nome e um pensamento ganhe forma.

De manhã, quando acordo, preciso desse silêncio. Antes das vozes, antes dos critérios, antes do mundo começar a pedir respostas. Preciso de beber o meu café e alinhar as ideias em silêncio. É ali, nesse tempo suspenso, que ainda não sou chamada a funcionar. Sem esse silêncio inicial, o dia começa desalinhado, como uma frase interrompida antes de um ponto final.

O silêncio obriga-nos a escutar. Escutar exige atenção. E a atenção exige tempo. Talvez seja por isso que o silêncio incomoda tanto: porque não pode ser apressado. Não responda à urgência do mundo. Não se adapta à velocidade das agendas. Porque o silêncio tem o seu próprio ritmo, e esse ritmo raramente coincide com o nosso.

Vivemos rodeados de ruído. Não apenas o ruído das ruas ou das máquinas, mas o ruído constante das opiniões, das respostas prontas, das vozes que se sobrepõem. Falamos muitas vezes não para dizer, mas para evitar ouvir. Porque o silêncio desmonta-nos e obriga-nos a ficar quando o mundo exige movimento.

À noite, quando termino e regresso a casa, gosto de fazer a viagem em silêncio. É uma forma de fechar o dia, de fechar o ciclo do que foi dito em excesso, do que foi pedido, do que foi exigido, como se pudesse fazer um reset . Mas o dia, infelizmente, não pára quando se fecha a porta da Academia. O ruído e os critérios continuam a acompanhar-me. E o silêncio que me é roubado faz-me falta, como fazem falta as palavras certas que não chegam a tempo. Porque o silêncio é uma permanência que nos convida a ouvir aquilo que tentamos abafar com palavras, porque há pensamentos que só aparecem quando tudo se cala e perguntas que só surgem quando não estamos ocupados a responder. 

No silêncio, percebemos o que realmente pesa, o que ficou por dizer, o que precisa de tempo. O silêncio não é falta de nada, o silêncio é uma condição. Sem ele, o mundo transforma-se num ruído contínuo onde nada se distingue verdadeiramente, onde tudo é igual e onde nada se aprofunda. Talvez seja por isso que desconfiamos tanto do silêncio. Ele não oferece distração. Não oferece garantias. Apenas presença. E a presença exige coragem.

Talvez seja por isso também que precisamos reaprender a confiar no silêncio. Não como fuga, mas como lugar. Não como vazio, mas como possibilidade. Um espaço onde não precisamos de provar nada, onde não somos obrigados a responder, onde podemos simplesmente estar. Porque, às vezes, é só no silêncio que realmente começamos a ouvir.

PB


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