O segundo dia: aprender a ficar

O segundo dia do ano não traz fogos nem promessas. Traz a rotina a regressar devagar, como quem pergunta se pode entrar. Já não há contagem decrescente, nem abraços apressados. Há café morno, mensagens não respondidas e um silêncio mais honesto.

Este dia foi para descansar. Para namorar os meus filhos — esse verbo que só quem ama profundamente entende — sabendo que em breve partirão de novo para as suas rotinas de estudo, para os horários, os cadernos, os futuros que se constroem longe do colo. Foi um dia vivido com a consciência suave de que o tempo corre, mas ainda nos pertence por instantes.

Hoje também foi dia de visitar os avós paternos. Há um conforto antigo nesses encontros, como se o tempo abrisse mais uma exceção para a ternura. Conversámos com o avô Zé, escutando histórias que já conhecemos, mas que pedem sempre para ser ouvidas outra vez. Recebemos os mimos da avó Odete, esses cuidados que não se explicam, apenas se acolhem. E, mesmo depois de tanta doçura, ainda nos deliciámos com uns docinhos de Alcoa — porque há afetos que sabem ainda melhor quando partilhados e porque a vida, às vezes, pede açúcar.

Houve ainda a magia de, ao visitar Alcobaça, visitar de novo o seu Mosteiro, onde a pedra antiga e gasta guarda a história mais bonita de todas. A de D. Pedro e D. Inês, que nos lembra que o amor, mesmo ferido, insiste em permanecer. Caminhar por aquele espaço é caminhar por dentro do tempo, é perceber que algumas histórias não acabam, apenas mudam de forma.É aqui que o ano começa de verdade. Quando percebemos que ficar também é um ato de coragem. Que não é preciso estar sempre a partir ou a recomeçar; às vezes basta permanecer. Permanecer nos afetos, nas escolhas feitas, nas pequenas decisões que ninguém aplaude.

O segundo dia ensina-nos que a felicidade não mora nos grandes anúncios. Mora nos gestos que se repetem. Nos dias que não parecem especiais, mas sustentam todos os outros. Mora nesses dias bons — discretos, silenciosos, inteiros — como este. Porque o segundo dia do ano foi, simplesmente, um bom dia.


PB

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