O dia acaba antes de começarmos

Ultimamente o dia começa comigo já cansada. Ainda nem abri os olhos e já estou atrasada. O despertador toca como um aviso de urgência permanente: levanta-te, anda, despacha-te, não há tempo. E eu obedeço. Sempre.

Vivo em modo de recuperação. Recuperar do sono que não dormi, do fim de semana que não deu para descansar, da energia que ficou algures na semana passada. Vivo a tentar recuperar o tempo como quem tenta apanhar um comboio que já partiu. Corro atrás dele, mas ele nunca abranda.

A rotina não é má por si. O problema é quando se torna invisível. Quando os dias começam a parecer cópias imperfeitas uns dos outros. Acordar, trabalhar, responder, resolver, cumprir. Repita. 

Há uma estranha sensação de que estamos sempre a preparar alguma coisa que nunca chega e, pelo caminho, a vida fica em modo preliminar.

O cansaço não vem apenas do que fazemos, mas do que não conseguimos viver. Da conversa adiada. Do silêncio que nunca acontece. Do corpo que pede pausa e recebe café, do corpo que pede tempo e recebe notificações. 

Há dias em que tudo é urgente e nada é importante. Em que o relógio dita o ritmo e eu só sigo, mesmo sabendo que ele não mede aquilo que realmente importa, mas apenas o que precisa ser feito. 

E quando finalmente paro — se parar — já é tarde. O dia acabou antes de começar. Ficou por viver aquilo que não cabia na agenda. Ficou por dizer aquilo que não era produtivo, mas era importante, ficou por sentir aquilo que não tinha prazo, mas era essencial.

Talvez o problema não seja a falta de tempo, mas sim a forma como o entregamos a tudo o que é urgente e não importante. Talvez eu precise abrandar e recuperar o direito à lentidão, à distração boa, ao momento inútil que afinal é essencial. Talvez viver não seja só chegar a horas, mas chegar inteira.

Porque um dia vivido à pressa não é um dia vivido. É apenas mais um dia cumprido.


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