O café que nos desperta
O dia começa com café. O cheiro sobe antes de mim, suave e insistente, e lembra-me que estou viva, que vou atravessar o tempo que me espera. Amanhece cedo, e já estou na sala, de olhos ainda pesados, mas com a chávena quente numa mão e a vontade de ensinar na outra. O café desperta, mas também acalma: prepara-me para o que virá, para os rostos que logo encherão a sala, para as perguntas que nem sei ainda que vão surgir.
Quarta-feira é um dia longo. Treze horas de trabalho que se estendem do 12º ao 5º ano. Um fio de histórias e vozes que me percorrem, intensas e vivas. Cada aluno traz uma novidade, um riso, uma preocupação. Alguns reencontros têm o peso delicado da saudade: não os via há quase três semanas, e ao vê-los novamente, os olhos brilham e algo se acende dentro de mim. A sala enche-se de conversas, dúvidas, ideias inesperadas, como se o tempo se comprimisse e expandisse ao mesmo tempo.
O café é o meu companheiro constante. Pela manhã, desperta-me. Ao meio-dia, sustenta-me. E no final da tarde, quando a luz se inclina sobre os cadernos e a minha sala mergulha numa quietude suave, o último golo é um gesto ritual: é a maneira de dizer ao dia: “Está feito por hoje. Obrigada.”
O fim do dia tem a sua própria poesia. Cada rotina que encerramos, cada gesto que repetimos, é um cuidado silencioso. Arrumar cadernos, apagar luzes, fechar portas, organizar o que ficou para amanhã — tudo isso é mais do que uma tarefa: é um gesto de preservação, um ritual que prepara o dia seguinte, que deixa a vida pronta para renascer com a manhã. Entre uma chávena e outra, percebo a continuidade: os alunos vão-se embora, mas o eco das suas vozes permanece, e a sala vazia parece sussurrar o que virá.
Do amanhecer ao fim da tarde, cada gesto é tecido com atenção. O café, quente nas mãos, é uma metáfora do cuidado que temos com cada instante. Ele lembra-me que a vida não está apenas nos grandes feitos, mas na soma de pequenos momentos: um sorriso, uma pergunta, uma explicação, uma chávena partilhada com um aluno que gosta de café tanto como eu.
E assim, entre a luz que diminui e o silêncio que se aproxima, o dia fecha-se. Mas não termina: deixa memórias, calor e atenção, deixando o mundo pronto para amanhecer outra vez. Cada dia é um ciclo, cada rotina é uma promessa, cada pausa é o gesto delicado de preparar a vida para mais uma manhã, mais um café, mais um encontro.
PB
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