Janeiro: o longo começo
Janeiro é um mês que se estende como um rio silencioso, carregando consigo o peso das promessas e a leveza das esperanças. É o primeiro suspiro do ano, e, ainda assim, parece mais longo que os outros: dez dias podem se sentir como dez semanas, e cada manhã se prolonga com uma quietude que lembra a eternidade.
Na mitologia, janeiro pertence a Jano, o deus das portas e dos começos, com duas faces que olham para trás e para frente. Uma observa o ano que passou, com seus erros, seus encontros e ausências; a outra encara o ano que se anuncia, cheio de possibilidades e incertezas. Olhar para ambas as direções exige coragem — é aceitar que o tempo não espera e que cada decisão, cada gesto, deixa marcas.
É um mês de transição, de sementes que ainda dormem, de promessas que ainda não se concretizaram. A luz demora a estender-se, e o frio mantém o mundo em suspenso, como se nos lembrasse que todo começo precisa de paciência. Os dias são longos, não pelo número de horas, mas pelo silêncio que se instala entre um acontecimento e outro, pelo espaço que nos obriga a refletir, a organizar pensamentos, a encontrar sentido no que virá.
Janeiro traz os reencontros: vozes que surgem de férias, rostos que não víamos há semanas, histórias que se acumulam enquanto estávamos longe. É também o mês dos planos, das agendas que se abrem com páginas em branco, das intenções que nos fazem sentir que o mundo inteiro cabe numa folha de papel. E, no entanto, é preciso caminhar devagar, porque a pressa quebra a magia do mês, e a vida só se revela nas suas transformações discretas: o sol que aparece mais cedo, o riso de uma criança na rua, a primeira flor tímida que desafia o inverno.
Janeiro é um mito vivo. É a oportunidade de começar sem apagar o passado, de criar sem desconsiderar as lições recebidas. Como nos contos de Isabel Allende, há mistério e esperança, dor e alegria entrelaçadas, e a narrativa do mês lembra-nos que o tempo é um tecido delicado, onde cada fio conta. É o mês em que nos tornamos jardineiros do futuro, regando sonhos, preparando solo, sem saber ainda quais flores irão nascer.
No final, janeiro é longo, sim, mas não por ser interminável. É longo porque nos convida a olhar para dentro, a escutar o silêncio, a perceber cada gesto e cada respiração como parte de um ciclo que começou ontem e continuará amanhã. Janeiro não se encerra com o calendário; ele encerra-se quando sentimos que, por mais que o ano esteja no início, já somos um pouco mais conscientes do tempo que nos pertence.
PB
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