Estar a Sós Não É Estar Sozinho

 Gosto da minha companhia como quem gosta de uma casa antiga: não é perfeita, range aqui e ali, mas conhece-me os passos. Não temo estar a sós comigo porque, quando o faço, encontro alguém que me escuta sem pressa. Há um certo conforto em habitar o próprio silêncio, como se ele fosse um idioma que só eu domino — e que, curiosamente, me entende melhor do que muitas palavras ditas em voz alta.

Confundimos estar sós com estar sozinhos porque se aprende a medir a vida pela quantidade de cadeiras ocupadas à mesa. Esquecemo-nos de que uma mesa vazia pode também ser um lugar de pensamento, e não de abandono. A solidão dói quando não sabemos quem somos; a solitude, pelo contrário, é o espaço onde finalmente nos encontramos. Uma é ausência que pesa, a outra é presença que sustenta.

Há pessoas que fogem de si como se o espelho fosse um inimigo. Enchem os dias de ruído para não ouvirem o que lhes cresce por dentro. Mas estar a sós apenas consigo mesmo, é um exercício de honestidade; sentar-se a sós consigo mesmo é aceitar que nem todos os pensamentos são confortáveis, mas todos são nossos. E isso basta. Não precisamos gostar de tudo o que somos — basta aceitar quem somos.

A solidão é uma espécie de jardim interior. Não serve para exibir, nem para explicar. Serve para caminhar devagar, tocar nas ideias como quem toca em folhas, e perceber que há beleza mesmo nas partes menos cuidadas. É ali que se aprende a diferença entre precisar de alguém e querer alguém. Só quem sabe estar só consegue escolher uma companhia sem desespero.

No fundo, a verdadeira solidão não é não ter ninguém — é não se ter. E talvez o maior gesto de amor próprio seja este: ficar. Ficar quando o mundo pede fuga. Ficar quando o silêncio se acompanha só por si mesmo. Ficar até perceber que a nossa presença é suficiente, e que, quando estamos a sós, não estamos vazios — estamos inteiros.


PB

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