Do inverno à primavera

O inverno ainda nos envolve, com os seus dias curtos e frios, com o vento que atravessa as ruas e entra pelas frestas da janela. Mas mesmo no meio da quietude cinzenta, pequenas transformações acontecem: a luz que demora mais a ir embora, a temperatura que sobe apenas alguns graus, os primeiros sinais tímidos de vida na terra que ainda dorme. É um ritmo discreto, quase imperceptível, mas presente, constante, anunciando o que virá.

Nota-se que os dias crescem, mesmo que ainda seja muito devagar. Cada minuto que se alonga, cada hora de luz que se insinua pelas manhãs, lembra-nos que o tempo não se apressa, que tudo acontece no seu próprio compasso. Olho para fora da janela e vejo a luz inclinar-se de maneira diferente, projetando sombras novas sobre a sala, e sinto que, mesmo sem perceber, já mudamos nós também: mais atenção, mais paciência, mais cuidado com cada detalhe.

E enquanto o tempo corre, há o que permanece. As memórias que se fixam em nós, que nos moldam, que nos acompanham mesmo quando a rotina tenta levar-nos adiante. O riso de um aluno, uma pergunta inesperada, o toque de uma mão na porta, o cheiro do café que sempre me desperta: tudo isso se acumula, tecendo uma presença silenciosa, mas firme, que nos faz quem somos.

Do inverno à primavera, entre o frio e o sol, entre o ontem e o amanhã, aprendemos a perceber o tempo nos pequenos sinais. Cada mudança, por menor que seja, carrega a promessa de renascimento. Cada dia que cresce lembra-nos que a vida avança, mesmo sem percebermos, e que as memórias, essas pequenas âncoras de sentido, dão-nos firmeza para atravessar os dias que ainda faltam.

E assim seguimos, atentos aos detalhes, às mudanças que surgem sem aviso, ao que persiste, ao que nos molda. Porque é nessa dança delicada entre transformação e permanência, entre o frio que ainda nos envolve e a primavera que se anuncia, que encontramos a verdade do tempo.


PB

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