Deste meu domingo
Ao domingo permito-me dormir um pouco mais. Ainda assim, acordo cedo, porque sou daquelas que acredita que começar cedo faz o dia render mais. Há em mim esta necessidade silenciosa de aproveitar as horas, como se o tempo fosse sempre precioso demais para ser desperdiçado. O silêncio da casa acordada é quase mágico: os móveis ainda guardam a memória da noite, os lençóis desfeitos parecem sussurrar histórias que só eu consigo ouvir.
Hoje ainda preciso de estudar. Estou a fazer uma formação e a preparar outra, e o estudo não espera. Precisa de espaço, de silêncio e de atenção. Precisa que eu me sente, que afaste distrações e que mergulhe nas páginas, nos documentos, nas notas que acumulei durante a semana. Há também trabalhos de casa dos alunos para corrigir, aulas para preparar, emails que aguardam respostas — e, no meio disso tudo, um domingo a acontecer, discreto mas insistente, lembrando-me que o tempo corre, mesmo quando se pretende desacelerar.
Ao domingo, almoçamos todos juntos. Os filhos que estão por cá, a minha mãe, as pequenas rotinas que nos ligam uns aos outros. É um ritual simples, mas essencial: o cheiro do pão a aquecer, a manteiga a derreter devagar, a conversa que flui entre risos e pequenas queixas de manhãs preguiçosas. Hoje, porém, falta a filha mais nova, e a mesa parece mais triste. Nota-se a ausência da gargalhada dela, aquela que costuma preencher os silêncios, aquela que dá outra vida ao almoço, tornando-o mais largo e mais luminoso do que realmente é.
Ainda assim, caprichei. Fiz o prato preferido do filho mais velho, como quem tenta compensar o que falta com cuidado e intenção. Há nesta preparação algo de ritual, quase sagrado: mexer os ingredientes, sentir os aromas a misturarem-se, ver a mesa posta como se fosse um pequeno altar de afetos. Houve direito a chocolate para a sobremesa, porque há dias que pedem esse conforto extra, pequeno mas sincero, que se saboreia devagar e que parece dizer que, mesmo na rotina, cabe ternura.
A tarde adivinha-se fria e chuvosa. Daquelas que convidam a ficar dentro, protegida do mundo, onde o vento parece querer invadir a casa e as janelas guardam um filtro de água e luz. Vou aninhar-me ao computador e trabalhar. Talvez termine o meu livro, mergulhando nas palavras como quem busca refúgio e inspiração. Talvez veja um episódio da minha série nova, deixando-me absorver por outras vidas. Talvez adormeça no sofá, vencida pelo cansaço acumulado, e sonhe com pedaços de semanas passadas e futuras tarefas.
Enquanto escrevo, ouço a chuva a bater no telhado, ritmada e constante. Cada gota parece marcar o compasso de um domingo que é ao mesmo tempo lento e apressado, sereno e carregado de pequenas obrigações. Amanhã há um dia longo pela frente. E, apesar de ser domingo, sinto que não descansei. Há um cansaço que não vem da falta de sono, mas da soma de tudo: das responsabilidades, das preocupações, do querer fazer bem, sempre. Há um cansaço que é físico e emocional, que se instala silencioso, mas que nos lembra da vida intensa que escolhemos viver.
O domingo passa assim, entre tarefas e afetos, entre o que precisa de ser feito e o que precisava de mais tempo. Entre o cheiro do café, o brilho da chuva na rua, os livros empilhados na mesa, a máquina de lavar que gira no canto e as pequenas vozes da casa. Um dia que não foi exatamente descanso, mas foi vida — e, talvez, isso também conte.
Quando a noite cair, sentirei que não se trata de encerrar, mas de preparar espaço. Preparar espaço para que o que foi vivido se transforme em memória, para que os detalhes do dia se assentem na pele e na mente, e para que a semana que vem possa começar com alguma leveza. Acordo amanhã e continuarei a estudar, a ensinar, a cuidar, mas carrego comigo estas pequenas pausas de domingo, estas horas que não se medem em descanso absoluto, mas em atenção, presença e afeto.
É assim que percebo que a vida, mesmo cheia de tarefas, não se esgota em listas ou obrigações. Ela está também nestes instantes silenciosos, nos gestos simples, nas conversas interrompidas pelo riso de quem nos é querido, na chuva que cai e na certeza de que, entre o fazer e o ser, cabe sempre um espaço para respirar, para existir e para começar de novo.
PB
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