Depois da tempestade...

Dois dias depois da tempestade Kristin, Fátima continua suspensa. O vento já não sopra, a chuva hoje não cai, mas a cidade ainda não regressou a si. Não há luz. Não há água. Não há rede. O tempo passa devagar, como se também tivesse sido atingido.

A tempestade chegou sem pedir licença. Árvores caíram à porta de casa — duas, exatamente ali, como um aviso silencioso. Noutros lugares, telhados voaram e levaram consigo a sensação de abrigo. A noite tornou-se maior, mais densa, mais difícil de atravessar.

Em minha casa falta apenas a luz. Sei que poderia ser pior. E, no entanto, o medo não se mede em perdas visíveis. Ele instala-se de forma discreta, quase educada. É um medo que não grita, mas permanece. Que não paralisa, mas desgasta.

Sem eletricidade, sem água, sem rede, a ansiedade cresce nos intervalos. Cresce na espera. Cresce na falta de notícias. Amigos, família, alunos tornam-se presenças ausentes. A impossibilidade de saber pesa mais do que o desconforto físico. O pensamento repete-se, insistente: estarão bem?

Foi preciso percorrer alguns quilómetros para encontrar um sinal de rede. Não por urgência prática, mas por necessidade humana. Precisava de saber dos meus amigos. Precisava de saber dos meus alunos. Precisava de confirmar que o mundo, apesar de ferido, continuava habitável. Nesse gesto simples revelou-se a nossa dependência — não apenas da tecnologia, mas uns dos outros.

A impotência é talvez o sentimento mais difícil de aceitar. Não há muito a fazer, senão esperar. Esperar que a luz volte. Que a água corra. Que a rede se recomponha. Esperar que a normalidade se lembre de nós. É uma espera inquieta, onde o corpo está presente, mas a mente vagueia.

Estamos à deriva, mesmo sem sair do lugar. A vida, nestes dias, acontece em fragmentos: uma vela acesa, um telefone com pouca bateria, uma rua bloqueada, uma mensagem que finalmente consegue chegar, uma aluna que se encontra no supermercado e nos alivia o coração. Pequenos gestos de resistência num quotidiano interrompido.

A tempestade já passou, dizem. Mas deixou marcas que não são apenas materiais. Deixou este estado de alerta, esta ansiedade silenciosa, esta consciência súbita da nossa fragilidade coletiva. Percebemos que o controlo é uma ilusão confortável — até ao dia em que falha.

Sinto tristeza. Não apenas pelo que falta, mas por tudo e por todos. Pela cidade, pelas pessoas, pela sensação de vulnerabilidade partilhada. Talvez seja isso que estas situações nos ensinam, da forma mais dura: somos frágeis, dependentes e profundamente humanos. E é no meio do medo, da ansiedade e da impotência que tentamos, ainda assim, continuar ligados.

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